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Nicarágua

Postado em 04/07/2021 11:28

Prisões, denúncias e intervenção: entenda o que está acontecendo na Nicarágua hoje

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Daniel Ortega e Rosario Murillo irão disputar sua terceira reeleição em novembro, em meio a acusação de perseguição a opositores – AFP
Lavagem de dinheiro, terrorismo, conspiração e incentivo à intervenção estrangeira são parte das acusações a opositores
Michele de Mello
Brasil de Fato | Caracas (Venezuela) |

A Nicarágua voltou a ser notícia internacional com o surgimento de denúncias de suposta perseguição a opositores, faltando apenas cinco meses para as eleições. Nas últimas semanas, 20 pessoas foram presas acusadas de lavagem de dinheiro, terrorismo, conspiração e incentivo à intervenção estrangeira.

Entre elas, estão: Félix Maradiaga, que planejava lançar candidatura pelo partido Unidade Nacional Azul e Branco; Víctor Hugo Tinoco, ex-ministro das Relações Exteriores e membro do partido União Democrática Renovadora (Unamos); Miguel Mora, dono do site 100% Notícias; e pelo menos três membros da família Chamorro – uma das principais representantes da oligarquia nicaraguense -, Juan Sebastián Chamorro (Aliança Cidadãos pela Liberdade) e os irmãos Cristiana Chamorro e Pedro Joaquín Chamorro.

A família Chamorro tem sete ex-presidentes nicaraguenses e os dois maiores veículos de comunicação do país: La Prensa e Confidencial.

Todos foram enquadrados na lei nº 1055 de Independência, Soberania e Autodeterminação para a Paz, que, entre outras coisas, penaliza nicaraguenses que promovam a intervenção estrangeira, como a aplicação de sanções e bloqueios econômicos.

Segundo investigações, tanto a Fundação Chamorro como o site 100% Notícias e outras organizações opositoras receberam repasses financeiros de agências de cooperação estadunidenses nos últimos seis anos.

Leia também: Melhor que EUA podem fazer é não intervir na Nicarágua, diz Ortega

Com o “Programa de fortalecimento de meios de comunicação”, a Agência para Desenvolvimento Internacional (USAID, da sigla em inglês) criou um orçamento de US$ 9,4 milhões, que seriam enviados entre 2014 e 2023 a organizações nicaraguenses.

Segundo os registros da própria agência, somente a Fundação Violeta Barrios de Chamorro para a Reconciliação e Democracia recebeu US$ 7 milhões entre 2014 e 2021. A página NicaLeaks revelou documentos da Fundação que estaria refinanciando outros 12 meios de comunicação nicaraguenses.

Os outros meios de comunicação opositores receberam mais US$ 10 milhões da USAID entre 2009 e 2021. Além disso, entre 2016 e 2019, a National Endowment for Democracy (NED), outra agência de cooperação dos EUA, destinou mais US$ 4,4 milhões a meios de comunicação e organizações opositoras na Nicarágua durante o último quinquênio.


Lista de repasses financeiros da USAID – agência de cooperação dos Estados Unidos – à Fundação Chamorro, que organiza a oposição nicaraguense / Divulgação

A USAID e a NED foram responsáveis por financiar a oposição venezuelana durante as tentativas de golpe de 2019 e 2020. Há ainda denúncias em outros países da região de que as duas agências financiariam grupos de extrema-direita.

“A USAID é uma das estruturas mais importantes para mover os tentáculos políticos dos EUA”, denunciou o ministro de Relações Exteriores da Nicarágua, Denis Moncada.

Eleições

As detenções tomaram ainda maior proporção porque aconteceram em um período de clima eleitoral. No dia 7 de novembro, os nicaraguenses deverão eleger o próximo presidente do país, 92 deputados para a Assembleia Nacional e 20 para o Parlamento Centro-Americano.

O período de inscrição das candidaturas será entre 28 de julho e 2 de agosto. Portanto, diferente do que foi noticiado por algumas agências internacionais, nenhum dos detidos é pré-candidato ou candidato.

Segundo as últimas pesquisas de opinião, realizadas pela empresa M&R Consultores, o partido governante, Frente Sandinista de Liberação Nacional (FSLN), possui 58,3% de aprovação, enquanto 22,7% se identificam com os opositores e 19% não souberam opinar.

Revolução de cores

Os opositores detidos lideraram os distúrbios de 2018 na Nicarágua, que começaram com atos contra aumento dos impostos previdenciários para o setor patronal e terminaram com 249 mortos.

Analistas políticos classificaram os protestos violentos como uma “revolução de cores” – tática de guerra para promover um caos no país que justifique a derrubada do presidente. Algo similar com o que aconteceu na Líbia, em 2011.

Na época, Miguel Mora, diretor do portal 100% Notícias, defendeu abertamente uma intervenção dos Estados Unidos, nos moldes do que aconteceu no Panamá em 1989, quando houve o sequestro do presidente e o estabelecimento de um novo governo à força.

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A família Chamorro reiteradamente solicita ajuda internacional contra o governo de Ortega, que acusa ser uma “ditadura”.

Daniel Ortega foi um dos principais líderes da Revolução Sandinista, que derrubou a ditadura de Somoza em 1979 e governou o país por 11 anos, aplicando programas sociais contra a pobreza, o analfabetismo e o narcotráfico. Derrotado nas urnas por Violeta de Barrios Chamorro, em 1990, Ortega deixou o poder, sendo reeleito em 2007, depois em 2012 e novamente em 2018.

Agora, o chefe de Estado busca vencer para um quarto mandato.

“O que eles buscam é nos derrotar. Paralisar o desenvolvimento dos países que estão lutando para restituir os direitos que historicamente foram retirados da maioria da nossa população, tanto os povos originários, como afrodescendentes, mulheres e jovens. Desconhecem que na Nicarágua temos uma Constituição, temos cidadania e um sentimento de dignidade e de defesa da nossa pátria e da nossa soberania”, afirmou o chanceler Denis Moncada, em entrevista à Telesur.

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