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Internacional

Postado em 17/02/2019 7:14

Peixe-país predador e peixe-país presa

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 Patrick Armstrong,* Strategic Culture Foundation

“Saibam todos que visitem essas lápides: Lembramos todos. Lembramos tudo.

Eles defenderam vocês.

(Olga Berggolts, em poema gravado no monumento em homenagem aos moradores resistentes mortos na luta vitoriosa contra os nazistas, no Cemitério Piskaryovskoye, em Leningrado).

[Epígrafe acrescentada pelos tradutores]

Achei bem útil essa analogia: pode-se dizer grosso modo que, ao longo dos últimos mil anos, alguns países foram peixe predador e alguns foram peixe-presa. Predadores e presa têm autoimagens completamente diferentes, e completamente diferentes comportamento e compreensão de como funciona o mundo e de como os países interagem.

Como todas as analogias, não chega a ser guia totalmente confiável: poucos países encaixam-se completamente numa ou noutra categoria, e por algum tempo a superioridade militar capacitou todos os países europeus para que se tornassem peixes-predadores ativos contra o resto do mundo. Mas acho que seja analogia útil hoje e especialmente aplicada às estupidezes calamitosas que os anglo-americanos ‘declaram’ sobre a Rússia; tudo ali é erradamente compreendido e exposto, erros que podem ter consequências desastrosas.

A Inglaterra é o peixe predador paradigmático. Confinados à sua pequena ilha com seus belicosos vizinhos galeses e escoceses, os ingleses submeteram os primeiros, mas jamais os segundos. Quando James VI da Escócia ascendeu ao trono inglês, espertamente tratou de inventar a “Bretanha” e o povo britânico, e coligou ingleses, escoceses e galeses a favor de uma causa comum. Esse novo amálgama criou então o maior império da história humana: tão extenso que em seu território, dizia-se, o sol jamais se punha.

Em sua vida bem mais curta, os EUA também foram bem-sucedido peixe-predador. A partir de uma faixa ao longo do baixo litoral leste de um continente – da qual cada palmo era declarado posse de alguma potência europeia, para nem falar dos habitantes autóctones, os EUA avançaram sobre meio continente. Hoje, a dominação militar norte-americana, com suas centenas de bases (a todo momento nasce o Sol em alguma base militar dos EUA pelo mundo), com presença naval planetária e moeda soberana, faz os impérios do século XIX parecerem frouxos, pouco interessados nos próprios impérios. Ainda que seu poder relativo esteja diminuindo, os EUA ainda são a potência predominante em muitas categorias. E, como se sabe pelas mais recentes revelações de Wikileaks, Washington absolutamente não lamenta usar os ditos instrumentos internacionais como o Banco Mundial, a OECD e o FMI como armas em seu arsenal.

O Reino Unido e os EUA são, em sequência, os mais bem-sucedidos peixes predadores de todos os tempos; superaram todos os desafios e ascenderam ao status de potências mundiais mais poderosas que quaisquer outros dois estados na história. São os predadores do nível mais alto da cadeia alimentar de toda a história.

Em contraste, estados e reinos africanos sempre foram peixes-presa para os predadores europeus e árabes: escravos, matérias-primas e espaço para colonizadores. As civilizações da América Central e do Sul caíram rapidamente, vítimas de doenças europeias e de armas ainda mais mortais. Por vários séculos, países e civilizações não europeias foram peixe-presa para a Europa. Até a Bélgica, peixe-presa em casa, conseguiu ser peixe-predador na África. A Poderosa China também foi peixe-presa, e só resta esperar que, quando afinal chegar, em futuro próximo, à posição de potência dominante, não vá em busca de vingança pelo seu “século de humilhação”.

O perigo é levar a analogia longe demais: zulus, incas, aztecas e iroqueses foram bem-sucedidos peixes-predadores nas respectivas ecologias, até que predadores maiores os destruíram. A Suécia também foi peixe predador de rapina, até que a derrota em Poltava marcou o fim do processo; e desde então vive calma e pacífica. Ex-super-predadores como Espanha ou Portugal, enfraquecidos pela superextensão e economias colapsadas, desistiram. E a Áustria é país pequeno, sem saída para o mar.

Mitos nacionais foram modelados profundamente pela dicotomia predador/presa. A independência da Polônia foi várias vezes cancelada: mais recentemente, foi dominada pela URSS e por isso, hoje, há mais antipatia anti-russos na Polônia, que anti-alemães ou austríacos. Os galicianos que dão atualmente o tom na Ucrânia, mostram mais animosidade contra a Rússia, que contra Polônia ou Áustria, por razões semelhantes.

A importância da analogia predador/presa para a guerra que se faz hoje contra a Rússia é que a Rússia está na estranha posição de ser peixe metade presa e metade predador. Ao longo de metade de seus mil anos, a Rússia foi peixe-presa: preservar a própria existência foi luta continuada contra povos montados a cavalo no sul, e Cavaleiros Teutônicos no norte. Um combate perdido para os mongóis, deu início a séculos de trabalho duro para derrubar o “Jugo dos Tátaros” e reunir as terras russas. A expulsão de forças polonesas-lituanas (dois peixes-presas, ali em momento de predação) marcou o fim do período presa, e nos cinco séculos seguintes, a Rússia expandiu-se em todas as direções, às vezes pacificamente, às vezes com guerra, mas crescendo sempre.

Mas as memórias da história da Rússia peixe-presa são persistentes. Na Rússia, monastérios são fortalezas inexpugnáveis e não há castelos; na Europa, monastérios são acolhedores e há incontáveis castelos. A Rússia, em seus tempos de presa, teve de lutar pela vida: dada a centralidade da Ortodoxia para a essência da russianidade, quer dizer, a religião russa. Por sorte para a Igreja Russa, os conquistadores mongóis pouco se interessavam pela religião dos povos conquistados, mas os Cavaleiros Teutônicos e os Lituanos-poloneses eram militantes pró-Roma; Napoleão usou as igrejas como estábulos e Hitler nunca se preocupou com russianidade, fosse o que fosse. Por isso os monastérios, como essência da russianidade, tiveram de ser fortificados para as guerras de sobrevivência nacional. A ausência de castelos explica-se porque, como fortalezas privadas, encarnariam a capacidade dos poderes locais para resistir contra o poder central; e na Rússia, o poder central sempre foi garantia e proteção da própria existência da nação.

A Europa, apesar de todas as suas guerras, desde a vitória de Tours jamais foi ameaçada na própria essência. (Espanha, Portugal e os Bálcãs, contudo, têm histórias semelhantes à da Rússia: resistência contra o invasor e luta prolongada para reunificação das próprias terras).

Efeito e resultado dessas realidades históricas, os russos têm modo absolutamente específico de encarar a guerra: para a Rússia, guerra é questão de vida ou morte. Para a Europa medieval, guerra era um esporte de reis, ruinoso para quem estivesse por perto, mas de limitado efeito no resto do mundo: do ponto de vista do camponês, Rei A ou Rei B pouco significava. As destrutivas guerras de religião e revolução jamais ameaçaram a Europa como Europa, porque eram guerras civis, entre modalidades diferentes de europeidade.

Os russos lembram-se de seus dias de peixe-presa, com mais clareza do que se lembram do período em que foram peixe predador. A memória do tempo em que foram peixe-presa torna muito difícil para os russos pensar na Grande Guerra do Cáucaso, ou nas guerras da Ásia Central como as guerras de predação que realmente foram. Os russos veem as guerras contra persas ou otomanos como guerras de libertação, não como devoramento por predador mais forte. A memória dos dias de peixe-presa permanece forte, não só porque a experiência anterior demarcou o padrão, mas porque recebeu reforço poderoso de 1941-1945.

A experiência de guerra dos anglo-norte-americanos não inclui qualquer memória desse tipo. Jamais estiveram em qualquer guerra na qual cada soldado que chegasse à capital inimiga tivesse, antes, passado pelas ruínas da destruição de sua própria pátria. (Norte-americanos: pensem na marcha de Sherman para o mar, através de todo o território dos Confederados e que depois se estendesse pelo resto do país na costa atlântica. A Grã-Bretanha nada conheceu de semelhante, exceto, em escala muito menor, a desolação das fronteiras escocesas sob Edward I ou as Terras Altas depois de Culloden.)

Andrei Martyanov, em seu livro Losing Military Supremacy: The Myopia of American Strategic Planning (2018, Clarity Press), argumenta que EUA e Reino Unido não concebem o que seja guerra de aniquilação, mas a Rússia conheceu várias. As cicatrizes da mais recente ainda são visíveis: há cerca de meio milhão de leningradenses enterrados só no Cemitério Piskaryovskoye: é mais que todos os mortos norte-americanos de todas as guerras de Washington pelo mundo, somados.

Concepções completamente diferentes do que seja “guerra”

Essa sua concepção completamente diferente do que seja “guerra” torna os russos defensivos, desconfiados e sempre prontos a lutar pela terra-mãe, e nada interessados em reconhecer que viveram tempos de peixe-presa. Os anglo-americanos vivem à espera de nova oportunidade para um ataque lucrativo de predação, e adoçam com pregação moralista a própria tara, como se vê hoje perfeitamente na Venezuela: ‘temos de roubar todo o petróleo deles, por razões humanitárias’. O choque é inevitável.

De um lado, a Rússia que nada esquece do tempo em que foram peixe-presa; de outro os seus vizinhos que só se lembram de ter sido peixe-presa. O contraste entre essas memórias está bem claro nesse vídeo do lado russo, dos benefícios que “os ocupantes russos” levaram à sua presa. Mas do ponto de vista do peixe-presa lituano, só se vê morte e destruição. Tudo é verdade, tudo é falso, sim, mas é preciso compreender a diferença.

Em outras palavras, o peixe-presa lembra que foi devorado; o peixe-predador não, sequer imagina esses terrores. Peixes-predadores não sabem o que é ser empurrado além do limite, porque nunca lhes aconteceu; peixes-presa nunca esquecem; predadores alimentam-se bem; presas temem a total extinção.

E assim, hoje, os anglo-EUA, incapazes de comer a Rússia (tão confiantes de que quem ainda ontem era presa, presa continuará para sempre, “posto de gasolina travestido de país”, “aqueles fazem-nada”) projetam sobre a Rússia suas fúrias predatórias.

Depois de décadas de predação bem-sucedida, os anglo-EUA creem que possam empurrar a Rússia para trás, eternamente. Mas a Rússia não esquece o que aprendeu quando foi presa e traz gravada nos ossos a compreensão do destino da presa. Perigo é que, em algum momento, a Rússia decida que a própria sobrevivência esteja ameaçada, e então, como já fez outras vezes, faça tudo, absolutamente tudo, custe o que custar, para não se deixar matar.

É erro perigoso, possivelmente fatal, dado o imenso arsenal russo; impossível contê-lo diz um general dos EUA (aposentado e, pois, capaz de ver o mundo real).

Presidente Putin: Sem dúvida seria desastre global para a humanidade, desastre para o mundo todo. Mas como cidadão russo e chefe do Estado russo, o que devo perguntar a mim mesmo é: Por que desejaríamos um mundo sem Rússia?

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* Patrick Armstrong foi analista no Departamento de Defesa Nacional do Canadá, especialista em URSS/Rússia, desde 1984; e Conselheiro na Embaixada Canadense em Moscou, entre 1993 e 1996. Aposentou-se em 2008, e atualmente escreve para vários blogs, como ensaísta, sobre a Rússia e temas correlatos.

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