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Internacional

Postado em 31/01/2020 5:17

Trump humilha os palestinos

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O presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas (centro), reage ao plano de Trump

Plano apresentado pelo presidente dos EUA contempla amplamente os interesses de Israel, enquanto palestinos claramente saem perdendo. Isso não pode acabar bem, afirma o jornalista Rainer Sollich.

   O conflito entre israelenses e palestinos já dura décadas, sem uma solução à vista. Nem guerras, atentados e revoltas populares, nem iniciativas internacionais, acordos de paz ou resoluções da ONU mudaram substancialmente alguma coisa nessa situação. A desconfiança é grande, e a disposição ou capacidade para acordos históricos é nula em ambos os lados.

Diante de tudo isso, deveria ser um impulso promissor se o presidente dos Estados Unidos aparece com uma visão pacifista e convincente para mudar o cenário no Oriente Médio e envia o seguinte sinal: estamos num profundo impasse – é hora de tentar com novas ideias e trilhar um caminho totalmente diferente!

Só que Donald Trump não é um presidente conhecido por suas visões pacifistas. Para o Oriente Médio, ele também não tem nem ideias nem abordagens novas. Bem ao contrário: seu anunciado “acordo do século” nem mesmo é um “acordo” no sentido de um compromisso duramente negociado entre dois lados em posição de igualdade. É claramente a tentativa de uma imposição política.

O plano considera – com algumas restrições de caráter sobretudo simbólico – os interesses de segurança de Israel de maneira muito unilateral e muito generosa, enquanto os palestinos nem mesmo participaram da elaboração do plano e são claramente os seus perdedores. Eles correm o risco de perderem, por anexação, outros territórios ocupados ou povoados por Israel e que eles poderiam reivindicar conforme o direito internacional.

O plano prevê, é verdade, um Estado para os palestinos – só que esse deve se submeter rigorosamente aos interesses de segurança de Israel e ser completamente desmilitarizado. Jerusalém deverá ser, para sempre, a capital “eterna e indivisível” de Israel – como Trump já havia determinado, de forma unilateral, em 2017. Ao mesmo tempo, porém, e quase como prêmio de consolação, algumas partes do lado árabe e oriental da cidade deverão servir de “capital” aos palestinos.

Trump declarou que seu plano pode ser a “última chance” para os palestinos. Ele também poderia ter dito: aceitem ou deixem para lá – mas uma segunda chance vocês não terão de mim! Assim jamais haverá uma solução de dois Estados em pé de igualdade. O que Trump concede aos palestinos é, na melhor das hipóteses, uma solução de um Estado e meio.

Essa abordagem política não só é amoral e humilhante – porque apenas um lado é contemplado nos seus “direitos” – como também perigosa, porque o plano de Trump praticamente dá carta branca a Israel, com base num suposto “acordo”, para anexar ainda mais territórios palestinos.

Isso tudo favorece o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, pois concessões maiores do que essas há tempos nenhum chefe de governo israelense havia conseguido extrair de Washington. Isso lhe dá impulso na campanha eleitoral e coloca as acusações de corrupção contra ele, ao menos num primeiro momento, em segundo plano.

Do lado árabe-muçulmano pode-se esperar amplos protestos, ainda que a maioria será apenas da boca para fora. Forças extremistas, porém, devem estar esfregando as mãos de alegria, pois o plano dá a elas um pretexto novo e perfeito para o terrorismo. Tudo isso, com certeza, não vai transformar o Oriente Médio num lugar mais seguro. Nem Israel.

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