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Postado em 15/09/2021 7:55

O sonho de George Soros: Tornar a China uma oportunidade para privatizações selvagens [1]

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Michael Hudson [*]

Num artigo no Financial Times, “Investidores na China de XI enfrentam um rude despertar” (30/agosto/2021), George Soros escreve que a “repressão de Xi à empresa privada mostra que ele não entende a economia de mercado. …Xi Jinping, o líder da China, chocou-se com a realidade económica. A sua repressão da empresa privada tem sido um entrave à economia”. Traduzido desta dupla linguagem orwelliana  “repressão à empresa privada” significa reduzir aquilo que os economistas clássicos chamavam de busca de renda e rendimento não merecido. Quanto ao seu suposto “entrave à economia”, o Sr. Soros quer dizer a polarização da economia concentrando a riqueza e o rendimento nas mãos dos Um Porcento mais ricos .

Soros apresenta o seu plano para o modo como uma retaliação dos EUA pode punir a China pela retenção do financiamento estado-unidense das suas empresas (como se a China não pudesse criar o seu próprio crédito) até que a China capitule e imponha a espécie de desregulamentação e destributação que a Rússia fez depois de 1991. Ele adverte que a China sofrerá uma depressão ao salvar a sua economia seguindo linhas socialistas e resistindo à privatização ao estilo americano e à deflação da dívida sua associada.

O Sr. Soros reconhece que o “sector mais vulnerável da China é o imobiliário, particularmente a habitação”. A China tem desfrutado de um boom imobiliário prolongado nas últimas duas décadas, mas isso está agora a chegar ao fim. Evergrande, a maior empresa imobiliária, está sobre-endividada e em perigo de incumprimento. Isto pode causar um crash”. Com isso, ele significa uma redução dos preços da habitação. É exactamente isso que é necessário a fim de impedir que os terrenos se tornem um veículo especulativo. Eu e outros exortamos a uma política de tributação da terra a fim de arrecadar o valor crescente da terra, de modo a que esta não seja comprometida junto aos bancos para crédito hipotecário para inflacionar ainda mais os preços da habitação da China.

Alertando para as consequências económicas da queda da taxa de natalidade na China, Soros escreve: “Uma das razões pelas quais as famílias da classe média não estão dispostas a ter mais do que um filho é que querem ter a certeza de que os seus filhos terão um futuro brilhante”. Isto, naturalmente, é verdade para todas as nações avançadas de hoje. É mais extremo nos países neoliberalizados, por exemplo, os países Bálticos e a Ucrânia – os países cartazes de Soros.

Soros revela o seu jogo ao afirmar que “Xi não compreende como funcionam os mercados”. O que ele quer dizer é que o Presidente Xi rejeita a procura voraz de renda, a exploração livre para todos, e que molda os mercados para servir a 99%a prosperidade global da China. “Em consequência, a liquidação foi autorizada a ir demasiado longe”, continua Soros. O que ele quer dizer é, demasiado longe para manter a dominância dos Um Por cento. A China está a procurar reverter a polarização económica, não a intensificá-la.

Soros afirma que as políticas socialistas da China estão a prejudicar os seus objetivos no mundo. Mas do que ele realmente reclama é que está a prejudicar os objetivos neoliberais da América quanto à forma como esperava ganhar dinheiro para si própria com a China. Isto leva Soros a lembrar aos gestores de fundos de pensões ocidentais que “devem alocar os seus ativos de forma estreitamente alinhada com os valores de referência em relação aos quais o seu desempenho é medido”. Mas a tragédia da financeirização das pensões é que os gestores de fundos de pensões são avaliados pelo dinheiro que ganham financeiramente – de formas que prejudicam a economia industrial ao promover engenharia financeira ao invés da engenharia industrial.

“Quase todos eles afirmam que incorporam padrões ambientais, sociais e de governação empresarial (ESG) nas suas decisões de investimento”, escreve Soros. Pelo menos, é o que os seus conselheiros de relações públicas anunciam. A Exxon afirma estar a limpar o ambiente através da expansão da perfuração de petróleo offshore na Guiana, etc. Quanto aos “padrões sociais”, a lenga-lenga neoliberal é uma economia de gotejamento: ao fazer subir os preços das nossas acções, através da recompra de ações e do pagamento de dividendos mais elevados, estamos a ajudar os assalariados a ganhar uma pensão, apesar de estarmos a deslocalizar e a desindustrializar a economia, a des-sindicalizá-la e a “libertar” a economia das leis de proteção do consumidor e do local de trabalho.

Soros tem uma solução radical, a qual sugere que “deveria obviamente aplicar-se aos padrões de referência de desempenho selecionados pelas pensões e outras carteiras de reforma”: … O Congresso dos EUA deveria aprovar uma lei bipartidária a exigir explicitamente que os gestores de ativos investissem apenas em empresas onde as estruturas de governação reais fossem transparentes e alinhadas com as partes interessadas”.

Uau! Tal projeto de lei impediria os americanos de investir em muitas empresas americanas cujo comportamento não está de todo alinhado com as partes interessadas. Em que proporção: 50%? 75? Mais?

“Se o Congresso aprovasse estas medidas”, conclui Soros, “daria à Securities and Exchange Commission os instrumentos de que ela precisa para proteger os investidores americanos, incluindo aqueles que não estão conscientes de possuirem acções chinesas e empresas de fachada chinesas. Isso serviria também os interesses dos EUA e da comunidade internacional das democracias em geral”. Assim, o Sr. Soros quer impedir os Estados Unidos de investir na China. Ele parece não ver que este é também o objetivo do Presidente Xi: A China não precisa de dólares norte-americanos e está de facto a des-dolarizar.

George Soros está obviamente aborrecido pelo facto de o Presidente Xi não ser Boris Yeltsin e porque a China não está a seguir a dependência cleptocrática que distorceu a economia da Rússia. Soros pensava que o fim da Guerra Fria simplesmente o deixaria comprar os mais lucrativos ativos geradores de renda, como ele pretendeu fazer nos Países Bálticos e na Ucrânia. A China disse “Não”, por isso não é considerada uma “economia de mercado”, ao estilo de Soros. Não tornou a sua organização social comercializável e evitou a dependência financeira que torna os “mercados” um veículo para o controlo dos EUA através de sanções e aquisições de empresas estrangeiras.

 [1] Privatizações selvagens:  No Brasil diz-se privataria.  Em inglês traduz-se por grabitization: uma fusão de grab (agarrar) e privatization (privatização).  A palavra teve origem na Rússia cleptocrática do tempo de Yeltsin, a chamada prikhvatizatsiya, quando gigantescas empresas estatais foram entregues a privados em troca de tostões.

Ver também: China procura conter o alto custo da habitação . Chinese state media label George Soros a ‘terrorist’

[*] Economista. Os seus livros estão aqui.

O original encontra-se em www.unz.com/mhudson/…

Este artigo encontra-se em resistir.info

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