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Postado em 29/06/2022 9:41

O planejado Tsunami Financeiro Global acaba de começar

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  1. William Engdahl [*]

Desde a criação do US Federal Reserve há mais de um século, todo grande colapso financeiro do mercado foi deliberadamente disparado por motivos políticos pelo banco central. A situação hoje não é diferente, pois o US Fed está a atuar claramente com a sua arma da taxa de juro para levar ao crash aquela que é a maior bolha financeira especulativa da história humana, uma bolha criada. Eventos de crash globais sempre começaram na periferia, tais como com o Austrian Creditanstalt em 1931 ou a falência do Lehman Bros. em setembro de 2008. A decisão de 15 de junho do Fed de impor a maior alta de taxa singular em quase 30 anos quando os mercados financeiros já estão num colapso, agora garante uma depressão global e até pior.

A extensão da bolha do “crédito barato” que o Fed, o BCE e o Banco do Japão engendraram com a compra de títulos e a manutenção sem precedentes de taxas de juro próximas de zero ou mesmo negativas durante 14 anos está para além da imaginação. Os media financeiros cobriram isto com insensatas reportagens diárias, enquanto a economia mundial está a ser preparada, não para a chamada “estagflação” ou recessão. O que está para acontecer agora, nos próximos meses, a menos que haja uma reversão política dramática, é a pior depressão económica da história até à data. Obrigado, globalização e Davos.

Globalização

As pressões políticas por trás da globalização e da criação da Organização Mundial de Comércio fora das regras comerciais Bretton Woods GATT com o Acordo de Marrakesh de 1994, asseguraram que os manufatureiros industriais avançados do ocidente, muito especialmente os EUA, pudessem fugir para o offshore, a externalização (“outsource”) a fim de criar produção em países de salários extremamente baixos. Nenhum país ofereceria mais benefícios no fim da década de 1990 do que a China. A China aderiu à OMC em 2001 e desde então os fluxos de capital do ocidente para a manufatura chinesa têm sido estarrecedores. Assim também tem sido a acumulação pela China de dívida em dólar. Agora essa estrutura financeira mundial baseada em dívida recorde está a começar dilacerar-se toda.

Quando Washington deliberadamente permitiu o colapso financeiro do Lehman Bros. em setembro de 2008, a liderança chinesa respondeu com pânico e delegou crédito sem precedente a governos locais para construírem infraestrutura. Uma parte dela foi parcialmente útil, tal como uma rede de ferrovias de alta velocidade. Outra parte foi claramente desperdiçada, tal como a construção de “cidades fantasmas” vazias. Para o resto do mundo, a procura sem precedentes da China por aço de construção, carvão, petróleo, cobre e outras coisas foi benvinda, pois os temores de uma depressão global recuaram. Mas as ações do US Fed e do BCE após 2008, e as dos seus respectivos governos, nada fizeram para corrigir o abuso financeiro dos maiores bancos privados do mundo na Wall Street e na Europa, bem como em Hong Kong.

A decisão de Nixon de agosto de 1971 de desligar do ouro o US dólar, a divisa mundial de reserva, abriu as comportas para inundações de moeda global. Leis sempre mais permissivas favorecendo a especulação financeira descontrolada nos EUA e alhures foram impostas a cada passo, desde a revogação de Clinton do Glass-Steagall a pedido da Wall Street em novembro de 1999. Isto permitiu a criação de mega-bancos tão grandes que o governo os declarou “demasiado grandes para falirem”. Isso era um embuste, mas a população nela acreditou e socorreu-os com centenas de milhares de milhões em dinheiro do contribuinte.

Desde a crise de 2008 o Fed e outros grandes bancos centrais têm criado crédito [em volume] sem precedentes, o chamado “dinheiro de helicóptero”, para salvar as maiores instituições financeiras. A saúde da economia real não era um objetivo. No caso do Fed, Banco do Japão, BCE e Banco da Inglaterra, uma soma de US$25 milhões de milhões (trillion) foi injetada no sistema bancário através das “facilidades quantitativas” (“quantitative easing”) da compra de títulos, bem como de ativos duvidosos como títulos apoiados em hipotecas (mortgage-backed securities) ao longo dos últimos 14 anos.

Loucura quantitativa

Aqui é que as coisas começam a ficar realmente más. Os maiores bancos da Wall Street, tais como JP MorganChase, Wells Fargo, Citigroup our em Londres o HSBC ou o Barclays, emprestaram milhares de milhões aos seus principais clientes corporativos. Os tomadores por sua vez utilizaram a liquidez não para investir em nova tecnologia manufatureira ou mineira, mas ao invés para inchar o valor das ações da sua companhia, as chamadas recompras de ações (stock buy-backs), destinadas a “maximizar o valor para o acionista”.

A BlackRock, Fidelity, bancos e outros investidores gostaram do almoço gratuito. Desde o início da facilidade do Fed em 2008 até julho de 2020, cerca de US$5 milhões de milhões foram investidos em tais recompras de ações, criando a maior corrida ao mercado de ações da história. Tudo se tornou financiarizado no processo. Corporações pagaram US$3,8 milhões de milhões em dividendos no período 2010-2019. Companhias como a Tesla que nunca haviam ganho um lucro, tornaram-se mais valiosas do que a Ford e a GM somadas. Criptomoedas como o Bitcoin alcançaram valores de capitalização de mercado de mais de US$1 milhão de milhões no fim de 2021. Com o Fed a despejar moeda livremente, bancos e fundos de investimento investiram em áreas de alto risco e alto lucro como títulos lixo (junk bonds) ou dívida em mercados emergentes como a Turquia, Indonésia ou, sim, a China.

A era pós 2008 da Facilidade Quantitativa e das taxas de juro zero levaram à absurda expansão da dívida do Governo dos EUA. Desde janeiro de 2020 o Fed, o Banco da Inglaterra, o Banco Central Europeu e o Banco do Japão injetaram um total de US$9 milhões de milhões de crédito à taxa quase zero no sistema bancário mundial. Desde então uma mudança da política do Fed em setembro de 2019 permitiu a Washington aumentar a dívida pública nuns estarrecedores US$10 milhões de milhões em menos de três anos. Então o Fed mais uma vez encobertamente salvou a Wall Street ao comprar US$120 mil milhões por mês de títulos do US Treasury e Mortgage-Backed Securities, criando uma enorme bolha de títulos.

Uma impulsiva administração Biden começou a repartir milhões de milhões nos chamados estímulos monetários para combater confinamentos desnecessários da economia. A dívida federal dos EUA passou de uns administráveis 35% do PIB em 1980 para mais de 129% do PIB nos dias de hoje. Só a Facilidade Quantitativa do Fed, ao comprar milhões de milhões do governo estado-unidense e dívida hipotecária a taxas quase zero tornou isso possível. Agora o Fed começou a desembaraçar-se disso e a retirar liquidez da economia com QT ou endurecimento quantitativo, mais altas de taxas. Isto é deliberado. Não é acerca de o Fed cair numas más avaliações da inflação.

A energia leva ao colapso

Tristemente, o Fed e outros banqueiros centrais mentem. Elevar taxas de juro não é cura para a inflação. É forçar uma reinicialização global (global reset) sobre os ativos do mundo, seja riqueza, seja imobiliário, terras agrícolas, produção de commodities, indústria e mesmo água. O Fed sabe muito bem que a inflação é apenas a começar a dilacerar a economia global. O que é único é que agora os mandatos Energia Verde por todo o mundo industrial estão pela primeira vez a conduzir esta crise inflacionária, algo deliberadamente ignorado por Washington ou Bruxelas ou Berlim.

A escassez mundial de fertilizantes, preços em ascensão do gás natural e perdas de oferta de cereais devido à seca global ou à explosão de custos dos fertilizantes e combustíveis ou à guerra na Ucrânia garantem que, no momento da colheita de setembro-outubro, suportaremos uma explosão adicional nos preços globais de alimentos e energia. Estas escassezes é toda ela um resultado de políticas deliberadas.

Além disso, inflação muito pior é certa, devido à insistência patológica das principais economias industriais do mundo em avançarem com a agenda anti-hidrocarbonetos defendida pela administração de Biden. Esta agenda é tipificada pela espantosa insensatez do secretário da Energia dos EUA a declarar: “comprem ao invés veículos elétricos” como a resposta à explosão dos preços da gasolina.

Analogamente, a União Europeia decidiu desativar o petróleo e gás russos sem substitutos viáveis quando a sua economia líder, a Alemanha, caminha para encerrar o seu últimos reatores nuclear e fechar mais produtores de carvão. A Alemanha e outras economias da UE verão em consequência apagões neste inverno e os preços do gás natural continuarão a subir. Só na segunda semana de junho na Alemanha os preços do gás subiram mais 60%. Tanto o governo alemão controlado pelos Verdes como a Agenda Verde “Fit for 55” da Comissão Europeia continuam a pressionar por inconfiáveis e custosas despesas com o eólico e o solar em detrimento dos hidrocarbonetos mais baratos e confiáveis, assegurando uma inflação sem precedentes liderada pela energia.

O Fed desligou a tomada

Com a alta de 0,75% do Fed, a maior em quase 30 anos, e a promessa de mais para vir, o banco central dos EUA agora garantiu um colapso não meramente da bolha da dívida estado-unidense mas também de grande parte da dívida global pós 2008 de US$303 milhões de milhões. Elevar taxas após quase 15 anos significa colapsar valores de títulos. Títulos, não ações, são o cerne do sistema financeiro global.

As taxas hipotecárias dos EUA duplicaram em apenas cinco meses para mais de 6% e as vendas de casas já estavam a afundar antes da alta de taxa mais recente. As corporações dos EUA assumiram uma dívida recorde devido aos anos de taxas ultra-baixas. Cerca de 70% dessa dívida é classificada apenas acima do status “lixo”. Essa dívida corporativa não financeira totalizou US$9 milhões de milhões em 2006. Hoje excede os US$18 milhões de milhões. Agora uma grande parte daquelas companhias marginais não será capaz de renovar (rollover) a velha dívida por nova e as bancarrotas seguir-se-ão nos próximos meses. A Revlon, gigante da cosmética, acaba de declarar bancarrota.

O altamente especulativo e não regulado mercado Cripto, liderado pelo Bitcoin, está a colapsar quando investidores percebem que não há salvamento possível. Em Novembro último o mundo Cripto tinha uma valorização de US$3 milhões de milhões. Hoje é de menos da metade e com mais colapso a caminho. Mesmo antes da alta de taxa mais recente do Fed o valor das ações dos megabancos havia perdido US$300 mil milhões. Agora com o mercado de ações ainda mais em pânico, com venda garantida à medida que o colapso económico cresce, estes bancos estão pré-programados para uma nova grave crise bancária nos próximos meses.

Como observou recentemente o economista Doug Nouland, “Hoje há uma “periferia” maciça carregada com títulos lixo “subprime”, empréstimos alavancados, compre agora pague depois, automóvel, cartão de crédito, habitação e equipamento solar, empréstimos de franquia, crédito privado, cripto crédito, DeFi e assim por diante. Uma infraestrutura maciça evoluiu neste longo clico para espicaçar o consumo a dezenas de milhões, enquanto financiava milhares de empresas não económicas. A “periferia” tornou-se mais sistémica do que nunca. E as coisas começaram a Estalar”.

O Governo Federal agora vai descobrir que o seu custo em juros por arcar uma dívida recorde de US$30 milhões de milhões é de longe muito mais caro. Ao contrário da Grande Depressão da década de 1930, quando a dívida Federal era quase nada, hoje o Governo, especialmente desde as medidas orçamentais de Biden, está nos limites. Os EUA estão a tornar-se uma economia do Terceiro Mundo. Se o Fed cessar de comprar milhões de milhões de dívida estado-unidense quem o fará?

A desalavancar a bolha

Com o Fed agora a impor um Endurecimento Quantitativo (Quantitative Tightening), retirando mensalmente dezenas de milhares de milhões em títulos e outros ativos, bem como elevando taxas de juro básicas, os mercados financeiros começaram a desalavancar. Isto provavelmente será sacolejante, pois jogadores chave como a BlackRock e a Fidelity procuram controlar o colapso para as suas próprias finalidades. Mas a direção é clara.

No fim do ano passado investidores tomaram emprestado quase US$1 milhão de milhões em dívida suplementar para comprar ações. Aquilo foi numa ascensão de mercado. Agora o oposto acontece e tomadores suplementares de empréstimo são forçados a darem mais colateral ou a venderem as suas ações para evitar o incumprimento (default). Isso alimenta o colapso que está para vir. Com o colapso tanto das ações como dos títulos nos próximos meses, vão-se poupança de aposentadoria privada de dezenas de milhões de americanos em programas como o 401-k. Cartões de crédito de empréstimos automóveis e outras dívidas de consumidor nos EUA na década passada incharam para um recorde de US$4,3 milhões de milhões no fim de 2021. Agora taxas de juro sobre aquela dívida, especialmente cartões de crédito, saltarão de uns já elevados 16%. Incumprimentos sobre aqueles empréstimos a crédito dispararão.

Fora dos EUA o que veremos agora, quando o Swiss National Bank, Banco da Inglaterra e mesmo BCE forem forçados a seguir a ascensão das taxas do Fed, é a bola de neve global de incumprimentos, bancarrotas, em meio à inflação crescente sobre a qual as taxas de juros dos bancos centrais não têm poder de controle. Cerca de 27% da dívida corporativa global não financeira é mantida por companhias chinesas, estimada em US$23 milhões de milhões. Outros US$32 milhões de milhões de dívida corporativa são mantidos por companhias dos EUA e da UE. Agora a China está em meio da sua pior crise económica desde há 30 anos e com pouco sinal de recuperação. Com os EUA, o maior cliente da China, a ir para uma depressão económica, a crise da China só pode agravar-se. Isso não será bom para e economia mundial.

A Itália, com uma dívida nacional de US$3,2 milhões de milhões, tem um [rácio] dívida-PIB de 150%. Só as taxas de juro negativas do BCE tem impedido que isso exploda numa nova crise bancária. Agora essa explosão está pré-programada apesar das palavras tranquilizadoras da Lagarde do BCE. O Japão, com um nível de dívida de 260% é a pior de todas as nações industriais e está numa armadilha de taxas zero com mais de US$7,5 milhões de milhões de dívida pública. O yen agora está a cair gravemente e a desestabilizar toda a Ásia.

Ao contrário da crença popular, o cerne do sistema financeiro mundial não são os mercados de ações. São os mercados de títulos – governamentais, corporativos e títulos de agências. Este mercado de títulos tem perdido valor pois a alta da inflação e das taxas de juro tem ascendido desde 2021 nos EUA e na UE. Globalmente isto abrange cerca de US$250 milhões de milhões em valores de ativos, uma soma que, com toda a ascensão da taxa de juro, perde mais valor. A última vez que tivemos uma grande reversão nos valores dos títulos foi quarenta anos atrás na era Paul Volcker com taxas de juro de 20% para “esmagar a inflação”.

Quando os preços dos títulos caem, o valor do capital da banca cai. Os mais expostos a tais perdas de valor são grandes bancos franceses juntamente com o Deutsche Bank na UE, bem como os maiores bancos japoneses. Acredita-se que bancos dos EUA como o JP MorganChase estão apenas ligeiramente menos expostos a um grande crash dos títulos. Grande parte do seu risco está oculto em derivativos fora do balanço. Contudo, ao contrário de 2008, hoje os bancos centrais não podem reexecutar uma outra década de taxas de juro zero e QE. Desta vez, como insiders como o ex-governador do Banco da Inglaterra observou três anos atrás, a crise será utilizada para forçar o mundo a aceitar uma nova Divisa Digital de Banco Central (Central Bank Digital Currency), um mundo onde toda a moeda será emitida e controlada centralmente. Isto é também o que as pessoas do Fórum Económico Mundial (WEF) de Davos querem dizer quando falam em Great Reset. Não será bom. Um Planeado Tsunami Financeiro Global acaba de começar.

[*] Consultor de risco estratégico, licenciado em política pela Universidade de Princeton.

Ver também:

O original encontra-se em journal-neo.org/2022/06/21/global-planned-financial-tsunami-has-just-begun/

Este artigo encontra-se em resistir.info

 

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