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Postado em 19/04/2020 12:34

O Ministro da Saúde e os nove monstros

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José Bessa Freire

 “Nunca, senhor ministro da Saúde, foi a saúde tão mortal! (…)

Senhor ministro da Saúde: o que fazer?” (Cesar Vallejo, 1937)

Um ano antes de sua morte ocorrida numa sexta-feira santa, em Paris, em 1938, o poeta peruano César Vallejo escreveu Os nove monstros, contendo questões premonitórias sobre esses tempos sombrios de Covid-19. O poema interpela o poder do Estado simbolizado no ministro da Saúde. Acena para a cruel desigualdade social, criada pela cupidez, que nega o pão a muitos em nome do lucro de poucos, gerando aflição, sofrimento, agonia. Revela a dor que se multiplica velozmente pelo planeta:

E, desgraçadamente,

a dor cresce no mundo a cada instante,

cresce a trinta minutos por segundo, passo a passo,

e a natureza da dor é a dor duas vezes”…

Por que os monstros, que só aparecem de forma enigmática no título do poema, são nove? Os exegetas deram diferentes respostas: uns leram nas entrelinhas a luta por justiça social presente na estrofe inicial e na última, ambas de nove versos; outros viram Cristo, símbolo da fraternidade e do sofrimento, crucificado e morto na hora nona (Marcos 15:25). De qualquer forma, o poema nos incita a localizar os nove monstros hoje no Brasil: 1) a desigualdade social; 2) a saúde como mercadoria; 3) as políticas públicas; 4) os recursos; 5) a estrutura hospitalar; 6) a corrupção; 7) a politicagem; 8) a ética; 9) a desmobilização política.

A eugenia

Tais monstros emergem nas respostas à pergunta: – Senhor ministro da Saúde, o que fazer? O oncologista e empresário Nelson Teich, antes de tomar posse nessa sexta (17), escancarou alguns monstrengos em painel no 9º Fórum de Oncoguia no ano passado. Ele começa falando de grana e termina defendendo ideias de seleção natural que no I Congresso Brasileiro de Eugenia, em 1929, culpava pelas epidemias “negros de inteligência inferior” e “índios indolentes e selvagens”. A fala eugenista do ministro desloca critérios de seleção, desta vez não de raça, mas de idade, isto como política pública. Ele não reivindica verbas para a saúde pública, considera normal sua falta:

– “Como você tem dinheiro limitado, você vai ter que fazer escolhas. Vai ter que definir onde vai investir. Eu tenho uma pessoa mais idosa que tem uma doença crônica avançada e ela teve uma complicação. Para ela melhorar eu vou gastar praticamente o mesmo dinheiro que eu vou gastar em um adolescente que está com problema. O mesmo dinheiro que eu vou investir. É igual. Só que essa pessoa é um adolescente, que vai ter a vida inteira pela frente e outra é uma pessoa idosa, que pode estar no final da vida. Qual vai ser a escolha?”.

Se a idosa fosse a mãe do ministro e o jovem um negro favelado, a lógica e a escolha dele seriam outras, não há falta de recursos para quem pode pagar um plano caro, apenas para quem depende exclusivamente do subfinanciado Sistema Único de Saúde (SUS). Nelson Teich construiu sua carreira na saúde privada, fundou a empresa Clínicas Oncológicas Integradas e criou Teich Heath Care para vender consultoria de gestão à saúde. Sua visão não parte da ótica da saúde pública, mas da privada. O seu discurso, que menciona o dinheiro várias vezes, omite medidas de políticas públicas de saúde. Ignora os princípios éticos defendidos por Picquet Carneiro e outros mestres da UERJ, onde se formou custeado por verbas públicas.

– “Economia e saúde não competem entre si” – discursou o ministro. Se é possível recuperar a economia, mas a vida não, vamos investir no que é recuperável, ele insinua, explicitando, sob o olhar vigilante de Bolsonaro, que” existe um alinhamento completo aqui entre mim e o presidente”. Talvez relembrasse a humilhação a que foi submetida a secretária de cultura Regina Duarte, que ensaiou um tímido passo de independência no discurso de posse. Ou o seu antecessor demitido por falta de “alinhamento”. Teich faz a apologia da saúde como mercadoria subordinada às leis do mercado.

Canoa da cloroquina

A saúde pública está sucateada. O Sistema Único de Saúde (SUS) não possui unidades de tratamento intensivo suficientes, nem equipamentos. Profissionais de saúde não contam com material de proteção, os recursos cada vez mais minguados são desviados em negociatas por todo o Brasil, com o caso exemplar de Sérgio Cabral e seu secretário Sérgio Cortes. Por que o dinheiro público é escasso para a saúde, mas ilimitado para as “rachadinhas” dos Flávio Bolsonaro, dos Queiroz et caterva? Um dos monstros é o da corrupção que não descansa nem na epidemia, que é aproveitada para fazer negócios escusos, como ocorre no Amazonas, o estado com a mais alta taxa de incidência do coronavirus.

O sistema de saúde no Amazonas está à beira do colapso” – escreve Fabiano Maisonnave, correspondente da Folha SP em Manaus. Vídeo gravado no hospital estadual João Lúcio mostra corredores com corpos à espera de remoção ao lado de pacientes e macas no chão. A saída foi utilizar contêiner frigorífico e embarcar na canoa da cloroquina pilotada por Jair Bolsonaro, como fez o governador Wilson Lima (PSC vixe vixe), jurando que ela “diminui a taxa de letalidade”. No entanto, as estatísticas “crescem a 30 minutos por segundo”, já são 145 óbitos até o momento em que escrevo a coluna e será outra no momento da leitura.

Wilson Lima alugou por três meses o hospital particular Nilton Lins por R$ 2,6 milhões. Acontece que esse hospital não dispõe de qualquer equipamento, ao contrário da Beneficente Portuguesa a quem o Estado deve o dobro do valor a ser pago na negociata. Um juiz suspendeu o contrato determinando a devolução de R$ 1,3 milhão. O governador se recusou a cumprir decisão judicial, declarando que para suspender o contrato “só passando por cima de meu cadáver”.

A canoa da cloroquina navega com objetivos eleitoreiros da politicagem. Em plena pandemia, o presidente Bolsonaro troca o ministro, o governador Wilson Lima muda seu secretário de Saúde, ambos de olho na reeleição em 2022 e não nas vidas em jogo especialmente dos setores mais vulneráveis como são os povos indígenas.

Armas de luta

Nas vésperas da comemoração do chamado “Dia do Índio” morreu um Sateré-mawé, de 67 anos, que testou positivo para o coronavirus e que nos últimos meses não havia saído de sua aldeia, na margem do rio Marau, onde vivem 91 pessoas. Ele foi infectado na própria aldeia, onde mais dois parentes tiveram diagnóstico positivo da doença. Já são 26 os índios contaminados e 23 suspeitos à espera de confirmação. Senhor ministro da Saúde: o que fazer?”

A premonição de César Vallejo se estendeu também a analistas de sua poesia. Duas pesquisadoras da Universidade de Salamanca, Carmen Gonzalez e Luísa Gargia publicaram, em 1987, “Um universo dolorido: los nueve monstruos de César Vallejo”.  Trinta e três anos depois, a última frase do artigo parece ter sido escrita hoje:

“Cabe se perguntar como é possível levar a cabo uma luta exitosa contra um inimigo impiedoso, de origem desconhecida, que se multiplica gratuitamente com o único fim de destruir. Porta fechada a todo horizonte de esperança da mesma forma que é fechada a estrutura do poema”.

Para outros leitores, a esperança não morreu como no poema de Leminski:

En la lucha de clases

todas las armas son buenas

piedras,

noches,

poemas

Panelaços também. Os dois últimos versos de Cesar Vallejo, sem serem tão incisivamente militantes, incitam os deserdados a resistir contra os nove monstros:

¡Ah! desgraciadamente, hombres humanos,

hay, hermanos, muchísimo que hacer.

P.S. Duas defesas realizadas agora pela internet mostram que pesquisas apresentadas em teses e dissertações também “son armas buenas”: 1) “Silêncio na escrita: uma etnografia da escola Kayapó em tempos ecocidas” dissertação de Adriana da Gama Vidal na Pós-Graduação em Estudos da Linguagem da UFF. Banca: Xoán Lagares (orientador) José R. Bessa (coorientador) Beatriz Protti e Consuelo Alfaro. 2) “Governo da língua e a necropolítica: o dispositivo colonial na cabanagem”, Texto de qualificação no Doutorado em Letras-Estudos Linguísticos da Universidade Federal do Pará. Banca: Ivânia Neves (orientadora), Aldrin Figueiredo, Isabel Rodrigues,  Mária do Rosário Gregolin e José R. Bessa.

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