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Postado em 22/09/2021 9:41

Lamarca e Brecht

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Emiliano José*
Quanto heroísmo. Quantos tropeços. Quantos erros. Um brasileiro, cheio de amor por sua terra, por sua pátria, seu Brasil. 50 anos depois, em 17 de setembro, lembrado com reverência

Nasceu no Estácio, em 1937.  No Estácio se criou.

À mente, matéria sobre ele, “As emoções de Lamarca”, segundo semestre de 1979, publicada pela revista Isto É. Assinada por mim, Mônica Teixeira e Mariluce Moura.

Era setembro, estava no Recife, comício de Miguel Arraes, volta dele do exílio, capital pernambucana em festa recebendo as grandes lideranças políticas do país.

E vem a recordação nesses cinquenta anos do assassinato dele no sertão da Bahia. Morreu com a idade de Cristo, aos 33 anos.  E a vontade é falar novamente das emoções dele, naquele momento de transe da vida brasileira, a ditadura a todo vapor, prendendo, torturando e matando, sem sinais de reação popular, em meio ao chamado “milagre brasileiro”.

Sonhou desde cedo: ser militar. Com 17 anos, ingressa na Escola Preparatória de Cadetes, em Porto Alegre. Em 1957, já cursava a Academia Militar de Agulhas Negras, em Resende, no Rio de Janeiro. É aqui seu primeiro contato com as ideias comunistas. Lia avidamente os panfletos e documentos distribuídos clandestinamente pelo PCB naquela escola – rito de iniciação.

Casou-se cedo, e para completar o soldo, foi para Suez, integrar as forças da ONU, onde serve entre 1962 e 1963. Choque de realidade. Depara com a pobreza da região, e guarda dali uma convicção: tivesse de combater, seria ao lado dos árabes.

Angústia no golpe de 1964. Pouco a fazer, salvo pequena insubordinação, quando deu jeito de dar fuga, em Porto Alegre, onde estava servindo então na 6ª Companhia da Polícia do Exército, ao capitão da Aeronáutica, Alfredo Ribeiro Daudt, preso político. Pede transferência para o 4º Regimento de Infantaria (4º RI), em Quitaúna, São Paulo, onde servira pela primeira vez.

No 4º RI, inicia-se uma virada em sua trajetória. Faz contato com a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) e dá passos nas convicções revolucionárias. No início de 1969, a insatisfação com a vida militar agiganta-se: o papel desempenhado pela corporação na vida política do país, envolto numa ditadura violenta de responsabilidade das Forças Armadas, AI-5, tudo isso o angustiava.

Resolve jogar tudo pelos ares, e sai do Quartel de Quitaúna para sempre, enchendo a Kombi dele com 63 fuzis FAL, algumas metralhadoras, uma pistola 45, farta munição. Era o dia 24 de janeiro de 1969, final da tarde. Armas para a Revolução.

Na rua, sem lenço, sem documento, vai deparar com a real situação da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Constata: havia recebido informes idealizados sobre a situação da organização – a esquerda, em seu viés militarista, era acostumada a traçar cenários idílicos em meio a situações dramáticas, como era o caso: mais de 40 militantes presos, riscos de novas quedas, sem dinheiro para alugar novos aparelhos ou para comprar carros para ações e deslocamentos. E restavam sessenta militantes clandestinos, cuja despesa de manutenção era alta.

Um susto. Não imaginara isso.

As armas foram levadas para um aparelho no Alto da Lapa, em São Paulo, onde ficou apenas 48 horas, por risco de ser descoberta pela repressão. Antônio Espinosa, principal dirigente da VPR naquele momento, entulha uma C-14 com as armas e saiu perambulando por São Paulo. Dois dias e duas noites, armas pra lá e pra cá, risco de a qualquer hora ser parado.

Por falta de opção, as armas acabaram nas mãos da Ação Libertadora Nacional (ALN), cujo principal comandante era Carlos Marighella. Mais tarde, essas armas foram motivo de um sério desentendimento entre o capitão e a ALN. Marighella não queria devolvê-las. Acabou entregando somente uma parte.

Lamarca sentira-se atraído pela VPR sobretudo pelas ações espetaculares, a evidenciar, no olhar dele, disposição real para o enfrentamento armado à ditadura. Nascera da fusão de remanescentes do Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR) e de um grupo dissidente da Polop (Organização Revolucionária Marxista – Política Operária – ORM-Polop), de origem universitária.

A ele, no esforço de atraí-lo e tirá-lo do quartel, venderam gato por lebre. Os dirigentes da organização chegaram a anunciar a existência de uma área de campo para a implantação imediata do foco guerrilheiro. Era fugir do quartel, e seguir com as armas para o campo. Isso o entusiasmara. E não era verdade. Restava num primeiro momento abrigado em um aparelho no Brás, em situação precária. As quedas prosseguiam.

Cabe logo um parêntese. Fazemos uma apreciação, Oldack Miranda e eu, em Lamarca, o Capitão da Guerrilha. O erro de fundo estava na estratégia da luta armada, envolta na perspectiva foquista e militarista, equívoco completo nas condições do Brasil. Lamarca, a VPR e tantas outras organizações não se livraram da armadilha do foquismo, própria de um tempo em que o debraysmo era uma febre, acompanhado das interpretações simplistas sobre a Revolução Cubana. Mesmo as organizações envolvidas por outras estratégias de luta armada, como as inspiradas no maoísmo, não conseguiram se livrar da armadilha foquista.

O aparelho do Brás onde foi alojado abrigava também três outros companheiros muito procurados pela repressão, uma rematada loucura. Repressão descobre dois dos militantes, fora do aparelho. Um morre, e o outro, ferido, ainda consegue avisar Lamarca para se mandar do apartamento. As precariedades iam se revelando, e o cerco repressivo, também.

A ALN o acolhe, diante da absoluta precariedade da VPR naquele fevereiro de 1969. Em março, vai para a casa da diretora teatral Heleny Guariba, no Brooklin Paulista – ela será mais tarde presa, torturada na Casa da Morte em Petrópolis – é uma das desaparecidas pela ditadura.

Em abril de 1969, participa do Congresso da VPR em Monguaguá, no litoral paulista. A contragosto, aceita a condição de dirigente da organização. Zequinha, José Campos Barreto, recusa. Já havia decidido voltar a Brotas de Macaúbas, na Bahia, para começar preparativos para o foco guerrilheiro.

Lamarca, como dirigente, logo depois do congresso, ainda em abril, conhece Iara Iavelberg, ex-militante da Polop, depois de uma dissidência, até chegar à VPR. Os dois viverão uma paixão intensa, até a morte. Com participação decisiva de Iara, acontece a aproximação do Comando de Libertação Nacional (Colina) e a VPR, e em julho de 1969, a Conferência de Fusão das duas organizações, outra vez em Monguaguá. Surge a Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares), Lamarca novamente eleito dirigente.

Essa fusão não era bem vista por alguns, como Dilma Rousseff e Carlos Alberto Soares de Freitas. No final de agosto de 1969, no Rio de Janeiro, Lamarca é submetido a uma cirurgia plástica para modificar o rosto, por demais conhecido da repressão.

Em setembro daquele 1969, participa ativamente do congresso de fusão da VPR e Colina, realizado em Teresópolis, no Rio de Janeiro. Depois da conferência, exigia-se um congresso. Nas reuniões preparatórias do encontro, notava-se uma avaliação excessivamente otimista da VAR-Palmares.

Como se a conjuntura sorrisse para a esquerda armada. Afinal, a VAR contava com mais de trezentos militantes, centenas de simpatizantes em todo o país, e muito dinheiro para sustentar a luta, depois da desapropriação do cofre do Adhemar.

A esquerda armada cultivava o hábito de avaliações descoladas da realidade. Aqui, esquecia-se dos movimentos do inimigo. Vivia-se o pós-AI-5 e a ditadura organizava o aparato repressivo em todo o Brasil. Prendia e matava, impiedosamente.

Reconhecer: realizar aquele congresso, uma proeza. Reunir cerca de sessenta pessoas na mais absoluta clandestinidade, sob uma conjuntura de repressão intensa e realizado simultaneamente ao sequestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick, era de fato uma façanha.

Foram intensas as discussões, e muitas as divergências, algumas quase resolvidas à bala. Lamarca, muito angustiado durante a reunião. Queria a luta armada logo, e para ele o encontro caminhava noutra direção.  Lamarca saiu com seus companheiros para um canto, refundando a VPR, e o restante, a maioria, seguiu com a VAR-Palmares.

Um racha. E ele, em minoria. Registrar: Lamarca e o grupo dele eram decididamente voluntaristas, empedernidamente foquistas, doidos para ir para o campo e deflagrar a guerrilha. A VAR-Palmares caminhava no fio da navalha: tentava encontrar um meio termo entre o foquismo e a luta de massas, mas a rigor também não conseguiu se livrar do militarismo, do debraysmo.   

Lamarca, então, sem paciência para aquela rotina de reuniões, aparelhos, congressos, pisa no acelerador e propõe à refundada VPR iniciar um treinamento de guerrilha de militantes no Vale do Ribeira, em São Paulo. Com a pretensão de formar quadros político-militares e, dar uma resposta à VAR-Palmares, demonstrar ser viável a luta armada.

Começa em janeiro de 1970.

Uma proeza: apesar de várias baixas, de serem obrigados a matar um tenente delator, de serem fustigados permanentemente por milhares de homens do Exército, Lamarca e mais três guerrilheiros conseguem chegar à capital paulista, na noite de 31 de maio daquele ano, sãos e salvos. O capitão respondia dessa maneira à VAR-Palmares – a luta armada era possível. Acreditava assim. Embora os resultados do treinamento não devessem necessariamente indicar expectativas de sucesso para a estratégia da luta armada.

Ao sair do Vale do Ribeira, encontra um VPR em crise profunda, acéfala. Sem condições de segurança, procura o Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT). Acolhido num aparelho em Interlagos, em situação muito precária, como de hábito. Vai pra outra casa, em melhores condições, com fachada de segurança melhor, na Vila Mariana.

Permaneceu ali entre julho e novembro de 1970. Pôde estar com Iara muitas vezes, viver um pouco a paixão. E fazer muitas reuniões com dirigentes da esquerda, tentando viabilizar a proposta da Frente Armada, discutindo-se simultaneamente a necessidade de um recuo estratégico.

É, um recuo. Não sei se o nome era próprio para tal movimento, mas assim era chamado: tratava-se de mandar os muitos quadros perseguidos pela repressão para o campo. Lá, deviam deflagrar a guerrilha – sempre ela, o sonho perseguido. E deveriam seguir sob o comando do capitão, cuja permanência na cidade estava quase inviável.

O cerco da repressão se fechando. Prisões se sucedendo. VPR e ALN decidem então sequestrar o embaixador alemão, Ehrefried von Holleben. Ocorreu no dia 11 de junho de 1970. No dia 15 de junho, um Boeing 707 decola levando quarenta presos políticos. A ação foi comandada por Eduardo Collen Leite, Bacuri, preso e torturado depois por cem dias seguidos, e morto. A imprensa deu Lamarca falsamente como o comandante do sequestro.

O capitão sente o cerco apertar. Chama o MRT e propõe seja levado para o Rio de Janeiro, o que acontece numa complexa e arriscada operação. Em novembro de 1970, desloca-se para um aparelho no interior do Estado, enquanto a VPR tenta juntar cacos. Lamarca preocupado. Isolamento completo da esquerda armada. VPR destroçada, reduzida a 30 militantes. Pensa: alguma coisa está errada: prisões, torturas, mortes e um saldo político igual a zero.

Nas ruas, o povo, indiferente às mortes, à repressão. O “milagre brasileiro” acontecendo, classe média satisfeita, trabalhadores explorados, porém calados. Concluía: há uma veloz desagregação e destruição da esquerda armada.

Começa a ouvir e a se aproximar do MR-8. Dali parecia vir um pensamento mais arejado, menos militarista, não obstante fosse também defensor da luta armada. Considerava, a par das reflexões sobre os caminhos da Revolução, o quanto a repressão se especializava, e não acreditava na continuidade dos sequestros como forma de luta naquela conjuntura.

A VPR, no entanto, propõe um novo sequestro, agora do embaixador suíço, Giovanni Enrico Bucher. Lamarca concordava com as críticas do MR-8, mas cede por disciplina. Não obstante, exige: seria o comandante da ação. Pensava assim, comandando, evitar loucuras.

Dito e feito. No decorrer das negociações para a libertação de prisioneiros políticos, depois de consumado o sequestro no dia 7 de dezembro de 1970, com a ditadura recusando nomes das listas apresentadas pelos revolucionários, a maioria decide matar o embaixador.

O capitão pensa: meus companheiros estão loucos. Era ir contra a opinião pública mundial e perder a oportunidade de libertar dezenas de prisioneiros políticos. Não reluta:

– Sou o comandante, decido eu.

– Não vamos matar o embaixador.

No dia 16 de janeiro de 1971, um avião decola com setenta presos políticos em direção ao Chile de Allende. As posições de Lamarca e do restante da VPR vão se tornando inconciliáveis. Marcado estivesse pelo debraysmo, o capitão iniciava um movimento sutil de recusa da exacerbação do militarismo, tão claramente manifestada naquele sequestro. Houve movimentos no sentido de saída dele para o exterior, prontamente recusada. Iara o acompanhava na decisão, apesar de convicta do destino dos dois: seriam mortos pela ditadura. Em março de 1971, Lamarca sai da VPR.

Ingressa no MR-8. Com ele, segue apenas Iara. Acreditava em unir o trabalho de massas no campo com a perspectiva da deflagração da guerrilha rural, como a nova organização defendia. O MR-8, no entanto, também acossado pela repressão. Cai um dos principais dirigentes, Stuart Angel, em maio de 1971. Repressão acreditava: por ele, chegaria a Lamarca. Stuart morreu, e nada disse. Tornou-se um dos crimes mais rumorosos da ditadura, devido sobretudo à luta iniciada pela mãe dele, a estilista Zuzu Angel, morta mais tarde num suspeito acidente de automóvel.

Cercados – assim se encontravam Iara e Lamarca no Rio de Janeiro. No dia 27 de junho de 1971, partem em direção à Bahia. Não foram os dois para Brotas de Macaúbas, onde José Campos Barreto organizava os trabalhos junto aos camponeses. Iara seguiu para Salvador, sem saber o destino de Lamarca.

O capitão teve momentos de desconcentração no sertão. Pôde desfrutar da acolhida tão afetuosa da família de Zequinha. Ouvir o canto dos pássaros. Sentir o cheiro do mato, o aroma da caatinga. Conhecer um pouco daquela terra onde mataram Corisco e feriram Dadá. Via futuro ali para o trabalho de massas e para a deflagração da guerrilha.

Menos de três meses depois, no dia 17 de setembro, ele e Zequinha serão assassinados pelo major Nilton Cerqueira e pelo cabo Dalmar Caribé, ambos do Exército. Antes repressão já havia matado Nilda Cunha e a mãe dela Esmeraldina Cunha, em Salvador. No cerco à casa dos familiares de Zequinha, mataram Otoniel, balearam Olderico, irmãos dele, e mataram também o professor Luís Antônio Santa Bárbara. Um banho de sangue. Lamarca, quem sabe felizmente, não soube do assassinato de Iara no dia 20 de agosto.

Quanto heroísmo. Quantos tropeços. Quantos erros.

Um brasileiro, cheio de amor por sua terra, por sua pátria, seu Brasil. 50 anos depois, lembrado com reverência, ele e Iara. Amaram o Brasil, deram a vida pelo povo.

Os algozes, recordados como tais: torturadores, assassinos covardes, promotores de um tempo de terror e dor.

Pudesse, e Lamarca evocaria Brecht, carinhosamente, no memorável poema “Aos que vierem depois de nós”, depois de ouvir as críticas, justas fossem ou sejam:

Assim passou o tempo que me foi concedido na terra. Vós, que surgireis da maré em que perecemos, lembrai-vos também quando falardes das nossas fraquezas, lembrai-vos dos tempos sombrios de que pudestes escapar. Íamos, com efeito, mudando mais frequentemente de país do que de sapatos, através das lutas de classes, desesperados, quando havia só injustiça e nenhuma indignação. E, contudo, sabemos que também o ódio contra a baixeza endurece a voz. Ah, os que quisemos preparar terreno para a bondade não pudemos ser bons. Vós, porém, quando chegar o momento em que o homem seja bom para o homem, lembrai-vos de nós com indulgência.

Lamarca, presente!

*Emiliano José é jornalista e escritor, autor de Lamarca: O Capitão da Guerrilha com Oldack de Miranda, Carlos Marighella: O Inimigo Número Um da Ditadura Militar, Waldir Pires – Biografia (2 volumes), O Cão Morde a Noite, entre outros

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