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Postado em 02/08/2021 9:35

Disputas pelo iminente boom afegão 

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Pepe Escobar, Asia Times

A corrida já está em preparação para construir e ampliar a esfacelada infraestrutura no Afeganistão, com potências rivais promovendo iniciativas que competem entre elas

Imagem: Forças afegãs de segurança iniciam operações contra os Talibã em torno da passagem de fronteira entre Afeganistão e Paquistão, na província Nangarhar, Afeganistão, dia 23/7/2021. Foto: AFP via Anadolu Agency / Stringer

Há mais de uma semana, retomaram-se as desesperadoramente lentas negociações de paz de Doha entre o governo de Cabul e os Talibã; e depois se arrastaram por dois dias, observadas por enviados da UE, dos EUA e da ONU.

Nada aconteceu. Não conseguiram concordar sequer quanto a um cessar-fogo durante o Eid al-Adha. Pior, não há mapa do caminho que leve ao modo como as negociações podem ser retomadas em agosto. O líder supremo dos Talibã, Haibatullah Akhundzada, corretamente, distribuiu declaração clara: os Talibã “favorecem firmemente um acordo político.”

Mas… como? Permanecem diferenças irreconciliáveis. A Realpolitik determina que de modo algum os Talibã abraçarão a democracia ocidental liberal: querem a restauração de um emirado islâmico.

O presidente Ashraf Ghani do Afeganistão, por sua vez, é mercadoria defeituosa até para os círculos diplomáticos de Cabul, que o ridicularizam como muito teimoso, e como incapaz de corresponder ao que a ocasião exige. A única solução possível no curto prazo parece ser um governo provisório.

Mas não se vê qualquer líder com apelo nacional – nada que se assemelhe à figura do Comandante Massoud. Todos os senhores-da-guerra são regionais – suas milícias protegem interesses locais, não a distante Cabul.


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 Milícia afegã armada reúne-se em apoio às forças de segurança do Afeganistão contra os Talibã, na casa de Ismail Khan, senhor-da-guerra afegão e ex-líder de Mujahidins, em Herat, dia 9/7/2021. Foto: AFP / Hoshang Hasimi

Enquanto fatos em campos indicam fortemente uma balcanização, os Talibã, embora em movimento de ofensiva, sabem que não podem promover uma tomada militar do Afeganistão.

Sabem também que, quando os norte-americanos dizem que continuarão a “apoiar forças do governo afegão”, estão dizendo que os bombardeios continuam, mas vindos do horizonte e agora sob administração do novo Centcom, no Qatar.

Rússia, China, Paquistão e os “-stões” da Ásia Central – todos estão fazendo o possível para superar o impasse. O teatro de sombras, como sempre, operou intensamente. Considerem por exemplo, a reunião crucial da Organização do Tratado de Segurança Coletiva, OTSC (de estados ex-soviéticos) – que aconteceu quase simultaneamente com a recente reunião de cúpula da Organização de Cooperação de Xangai, em Dushanbe; e a subsequente conferência sobre conectividade Ásia Central-Sul da Ásia, em Tashkent.

A reunião de cúpula da OTSC foi absolutamente 100% à prova de vazamentos. Mas antes já haviam sido discutidas ”possibilidades de usar o potencial dos estados-membros da OTSC” para manter sob controle a altamente volátil fronteira Tadjiquistão-Afeganistão..

Esse é assunto realmente muito sério. Uma força-tarefa comandada pelo coronel-general Anatoly Sidorov, chefe do Estado-maior da OTSC, está encarregada de “medidas conjuntas” para policiar as fronteiras.

Agora, entra em cena um gambito ainda mais intrigante, no jogo de sombras – cercado de negativas que nada negam vindas dos dois lados, de Moscou e de Washington.

O jornal Kommersant revelou que Moscou ofereceu alguma “hospitalidade” ao Pentágono e respectivas bases militares no Quirguistão e no Tadjiquistão (ambos estados-membros da Organização de Cooperação de Xangai, OCX). O objetivo: manter um olho conjunto sobre o tabuleiro de xadrez afegão, agora em rápida movimentação – e impedir que cartéis de traficantes de drogas, islamistas do tipo ISIS-Khorasan e refugiados cruzem as fronteiras desses ‘-stões’ centro-asiáticos.

Os russos – apesar das negativas que nada negam –é não permitir que os norte-americanos safem-se como se não tivessem qualquer responsabilidade sobre essa “confusão” (© Sergey Lavrov) no Afeganistão; e, ao mesmo tempo, impedir que recriem qualquer nova unidade do Império de Bases do Império na Ásia Central.

Estabeleceram bases no Quirguistão e Uzbequistão depois de 2001, embora tenham sido forçados a abandoná-las adiante, em 2004 e 2014. O que está bem claro é que não há absolutamente nenhuma possibilidade de os EUA virem a restabelecer bases militares em países membros da OCX e da OTSC.

Nasce um novo Quad

Na reunião de 2021, em Tashkent, de nações da Ásia Central e Sul da Ásia, realizada logo depois da reunião da OCX em Dushanbe, aconteceu algo bastante intrigante: nasceu um novo Quad (que nada tem a ver com o do Indo-Pacífico).

A novidade foi anunciada pelo Ministério de Relações Exteriores do Afeganistão como “oportunidade histórica para abrir florescentes rotas de comércio internacional, [e] as partes estão interessadas em cooperar para expandir o comércio, construir conexões de trânsito e fortalecer laços business-to-business.”

Se soa como algo nascido diretamente da Iniciativa Cinturão e Estrada… Bem, aqui está a confirmação, pelo Gabinete de Relações Exteriores do
Paquistão:

“Representantes dos EUA, Uzbequistão, Afeganistão e Paquistão concordaram, em princípio, em estabelecer uma nova plataforma diplomática quadrilateral focada no aumento da conectividade regional. As partes consideram a paz e a estabilidade a longo prazo no Afeganistão fundamentais para a conectividade regional e concordam que a paz e a conectividade regional reforçam-se mutuamente”.

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EUA estariam tentando fazer uma sua ‘Cinturão e Estrada’ bem ali, no quintal da China? ‘Tuíto’ do Departamento de Estado confirma. Podem considerar como um caso de “se não consegue derrotá-los, una-se a eles”.

Ora, essa é talvez a única questão em relação à qual concordam virtualmente todos os atores no tabuleiro de xadrez afegão no Afeganistão: um Afeganistão estável super turbinará o fluxo de cargas num dos nodos vitais da integração da Eurásia.

Suhail Shaheen, porta-voz dos Talibã foi muito consistente: os Talibã veem a China como “amiga” do Afeganistão e anseiam por ver Pequim investir no trabalho de reconstrução, “o mais rapidamente possível.”

A questão é o que Washington visa a conseguir com esse novo Quad – pelo momento, só existente no papel. Simples: jogar uma cunha monstro nos trabalhos da OCX, liderada por Rússia-China, e principal fórum do qual pode sair alguma solução prestável para o drama afegão.

Nesse sentido, a competição EUA vs Rússia-China no teatro afegão encaixa-se perfeitamente no gambito “Reconstruir o Mundo Melhor” (ing. Build Back Better World, B3W), que visa – pelo menos em tese – a oferecer plano de infraestrutura alternativo à Iniciativa Cinturão e Estrada e forçá-lo sobre nações do Caribe e África ao Pacífico Asiático.

O que não discute é que um Afeganistão estável é essencial, em termos de estabelecer plena conectividade ferroviária da Ásia Central, rica em recursos, até os portos paquistaneses de Karachi e Gwadar, e dali aos mercados globais.

Para o Paquistão, trata-se de ganha-ganha geoeconômico garantido, seja via o Corredor Econômico China-Paquistão (CECP), nave madrinha do projeto Cinturão e Estrada, ou via o novo Quad, ainda incipiente.

A China financiará a rodovia Peshawar-Cabul, altamente estratégica. Peshawar já está ligado ao CECP. A conclusão da rodovia selará simbolicamente o Afeganistão, como parte do CECP.

Mapa: ICE vs Novo ‘Quad’

E então, há o acordo trilateral conhecido pela simpática sigla Pakafuz – acordo Paquistão, Afeganistão e Uzbequistão para construir uma ferrovia – conexão fundamentalmente estratégica entre a Ásia Central e o Sul da Ásia.

Plena conectividade entre Ásia Central e Sul da Ásia também é pilar chave da principal estratégia russa – a Parceira da Eurásia Ampliada – que interage de vários modos com a Iniciativa Cinturão e Estrada.

Lavrov dedicou-se longamente, na cúpula Ásia Central-Sul da Ásia em Tashkent a explicar a integração da Parceria Eurásia Ampliada com a OCX e a União Econômica Eurasiana (UEE).

Lavrov também se referiu à proposta uzbeque de “alinhar a Ferrovia Transiberiana e o corredor Europa-China Ocidental com os novos projetos regionais”. Tudo está interligado, olhe-se como for.

Atenção ao fluxo geoeconômico

O novo Quad está, de fato, chegando atrasado, em termos da rápida transmutação geopolítica da Terra Central. Todo o processo está sendo conduzido por China e Rússia, que cuidam juntas dos assuntos da Ásia Central.

Já no início de junho, uma muito importante declaração conjunta de China-Paquistão-Afeganistão  destacou o modo como Cabul será beneficiada pelo comércio via o porto de Gwadar, do CECP.

E, claro, há também o Oleogasodutostão.

Dia 16/7, Islamabad e Moscou assinaram um mega-acordo  para a construção de um gasoduto de $3 bilhões de dólares, 1.100 km, entre o porto Qasim em Karachi e Lahore, a ser concluído ao final de 2023.

O gasoduto transportará Gás Natural Liquefeito (GNL) do Qatar, até o terminal para GNL em Karachi. É o Projeto Gasoduto Pakstream [ing. Pakstream Gas Pipeline Project] – conhecido localmente como projeto Gás Norte-Sul [ing. North-South Gas Project].

A interminável guerra no Oleogasodutostão entre IPI (Índia-Paquistão-Irã) e TAPI (Turcomenistão-Afeganistão-Paquistão-Índia) – que acompanhei em detalhes durante anos – parece ter terminado com um terceiro vencedor.

Assim como o governo de Cabul, os Talibã parecem estar dando muita atenção a toda a geoeconomia e a como o Afeganistão está no coração mesmo de um inevitável boom econômico.

É possível que os dois lados estejam dando muita atenção a alguém como Zoon Ahmed Khan, jornalista paquistanesa extremamente inteligente, pesquisadora associada do Instituto Iniciativa Cinturão e Estrada [ing. One Belt-One Road Strategy Institute] na Universidade Tsinghua.


Imagem: Forças da Marinha paquistanesa guardam de navio que transporta contêineres no porto de Gwadar, 700 kms a oeste de Karachi, onde opera um programa comercial entre Paquistão e China. Foto: AFP/Aamir Qureshi

Zoon Ahmed Khan observa que “uma das significativas contribuições que a China faz mediante a Iniciativa Cinturão e Estrada é destacar o fato de que países em desenvolvimento como o Paquistão têm de encontrar via própria de desenvolvimento, em vez de seguirem qualquer modelo ocidental de governança.”

E acrescenta que “A melhor coisa que o Paquistão pode aprender do modelo chinês é alcançar seu próprio modelo. A China não visa a impor a outros países a própria jornada e a própria experiência, o que é muito importante.”

Afirma que a Iniciativa Cinturão e Estrada “está beneficiando região muito maior que o Paquistão., o que a China tenta fazer mediante a Iniciativa é mostrar aos países parceiros a própria experiência e o que a ICE pode oferecer.”

Tudo isso sem dúvida aplica-se ao Afeganistão – e sua complicada mas inevitável inserção no processo em andamento de integração da Eurásia.*******

* “Quad”, ou QSD, ing. “Quadrilateral Security Dialogue”, é um grupo de diálogo estratégico formado de EUA, Japão, Austrália e Índia [NTs, com informações de Wikipedia].

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