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Postado em 07/01/2016 9:01

As execuções da Arábia Saudita foram dignas do Estado Islâmico

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Será que agora o Ocidente vai parar de rastejar pelos seus monarcas do petróleo? Os sauditas estão tentando rasgar o acordo nuclear iraniano?

Robert Fisk

Foto: Glen Johnson / U.S. Department of State

As decapitações na Arábia Saudita – 47 ao todo, incluindo o erudito clérigo xiita Sheikh Nimr Baqr al-Nimr, com as devidas justificativas corânicas para as execuções – foram dignas do Estado Islâmico (EI). Talvez esse seja o ponto. Um extraordinário banho de sangue na terra da monarquia sunita de al-Saud – claramente destinado a enfurecer os iranianos e todo o mundo xiita – re-sectarizando um conflito religioso que o próprio EI já promove muito bem.

O Sheikh Nimr não era apenas um sacerdote idoso. Ele passou anos como estudioso em Teerã e na Síria, foi um líder xiita reverenciado na província da Arábia Oriental e um homem que, embora não participasse de um partido político, lutou por eleições livres, e foi regularmente detido e torturado por se opor ao governo sunita Wahabi da Arábia Saudita. Sheikh Nimr disse que as palavras eram mais poderosas do que a violência. Já as autoridades sugeriram que não havia nada de séctario em torno deste banho de sangue, – uma vez que decapitaram tanto sunitas, como xiitas – retórica clássica do EI.

Afinal, o EI corta cabeças de “apóstatas” sunitas, de soldados iraquianos e de sunitas sírios tão facilmente quanto abate xiitas. Sheikh Nimr teria recebido exatamente o mesmo tratamento do Estado Islâmico. Talvez apenas sem a paródia de julgamento pseudo-legal que o Sheikh Nimr recebeu dos sauditas e que a Anistia Internacional criticou.

Mas os assassinatos representam muito mais do que apenas o ódio saudita por um clérigo que comemorou a morte do ex-ministro saudita – o pai de Mohamed bin Nayef, o príncipe Nayef Abdul-Aziz al-Saud – com votos de que ele fosse “devorado por vermes e sofresse os tormentos do inferno em seu túmulo “. A execução de Nimr tende a revigorar a rebelião Houthi no Iêmen, país que os sauditas invadiram e bombardearam este ano, em uma tentativa de destruir o poder xiita que ali subsistia. Ela enfureceu a maioria xiita em um Bahrein regido pelos sunitas. E clérigos do Irã já afirmaram que a decapitação causará a derrubada da família real saudita.

Ela também apresentará ao Ocidente o que existe de mais embaraçoso entre os problemas do Oriente Médio: a contínua necessidade de se encolher e de rastejar pelos monarcas ricos e autocráticos do Golfo, ao mesmo tempo que expressa seu mal-estar diante da carnificina grotesca que os tribunais sauditas esbanjam frente aos inimigos do reino. Quando o EI decepou cabeças sunitas e xiitas em Raqqa – que incluiam o caso problemático de uma sacerdote xiita parecido com Sheikh Nimr – todos sabíamos que Dave Cameron compartilharia seu desgosto no Twitter perante tão repugnante ato. Mas Cameron, o mesmo homem que arreou a bandeira britânica quando morreu o último rei deste absurdo Estado Wahabi, certamente usará palavras evasivas para tratar destas execuções.

No entanto, muitos sunitas da al-Qaeda também acabam de perder a cabeça – literalmente – para carrascos sauditas. A pergunta que será feita em Washington e nas capitais europeias é: os sauditas estão tentando rasgar o acordo nuclear iraniano ao forçar seus aliados ocidentais a apoiarem até mesmo essas últimas atrocidades? No mundo obtuso em que vivem – em que o jovem ministro da Defesa, que invadiu o Iêmen, não gosta do ministro do Interior – os sauditas ainda estão glorificando a coalizão “anti-terror” de 34 nações, em grande parte, sunitas que supostamente formam uma legião de muçulmanos em oposição ao “terror”.

As execuções foram certamente uma maneira inusitada de celebrar o ano novo – quase tão espetacular quanto a queima de fogos em Dubai, que incluiu um dos melhores hotéis do emirado. Para além das implicações políticas, no entanto, há também uma questão óbvia a ser colocada pelo próprio mundo árabe: será que os governantes do Reino de Saud enlouqueceram?

Créditos da foto: Glen Johnson / U.S. Department of State

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