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Postado em 04/10/2021 6:53

A matemática do amor: Tuta e Regininha

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José Bessa Freire

“Você junta duas pessoas que não se conheciam e, às vezes,

o mundo se transforma, às vezes não”. (Julian Barnes 2013)

O arraial anual de Aparecida realizado sempre no mês de setembro, em Manaus, era um lugar onde namoros às vezes começavam, às vezes terminavam. Naquele ano de 1969, jovens desfilam alegremente pra cima e pra baixo, paquerando, sem dar a mínima bola para a notícia que sacudia todo o país: o sequestro do embaixador americano no Brasil, Charles Elbrick. De repente, Tuta bate o olho num brotinho de 18 anos, que não conhece. Seu coração faz tuc-tuc-tuc. Naquele momento, ele tem certeza absoluta: – “É ela”. Era ela, que passeava com a Raimunda Roroca, amiga dos dois. Ele, muito enxerido:

– Não vai nos apresentar?

A Roroca, com aquele sotaque encantador do Pará, faz o meio de campo:

– Reginin-nha, Tuta! Tuta, Reginin-nha!

Enquanto comiam pastel na barraca da dona Dinoca, os dois jogam conversa fora. Tuta, pintoso, pergunta se ela gosta de dançar. Regininha, uma uva, confessa que adora músicas de Nelson Gonçalves. Combinam ir ao próximo baile da SAGA – Sociedade Atlética Guarda de Aparecida e se despedem. Tuta vai direto ao “Serviço de Amplificação A Voz Quermesse de Aparecida”. Conta o dinheiro: NCr$ 1,00 (um cruzeiro novo), que correspondia a CR$1.000,00 antes de a ditadura mudar a moeda para tentar conter a inflação. Dá para pagar um “telegrama no ar”. Minutos depois, Zeca Pinto – ou teria sido o Bibi? – anunciava no alto falante:

– Para você que está passeando neste arraial vestindo saia plissada azul e blusa branca de organdi de mangas arredondadas, alguém oferece a música “Êxtase”, de Nelson Gonçalves. Assinado: você já sabe quem é.

Ah! Quanta saudade desses tempos analógicos…

Abelha na flor

Na quermesse, além da paquera, rolavam jogos, sorteios, leilão, comida regional e música transmitida por alto-falante. Enquanto toca a música, Tuta vai até a pracinha do Bingo, onde está Regininha, um “brotinho”, uma “uva” – assim eram chamadas as “gatinhas” da época. Ambos se entreolham, trocam piscadelas cúmplices e disparam centelhas enamoradas no exato momento em que os últimos versos explodem no gogó do Nelson Gonçalves:

– E assim, como faz na flo-oor qualquer abelha / sugarei tua boca vermelha / num beijo espetacular. 

O primeiro beijo que a abelha sorveu foi furtivo, mas inesquecível.  Aconteceu no baile da SAGA. Teve de ser escondido, porque tinha uma pedra no meio do caminho, no meio do caminho tinha uma pedra: dona Maristela, mãe de Regininha. E que pedra! Da abelha só lhe interessava o ferrão. Ela não gostava de polinização e nem queria que aquela semente de amor brotasse, alegando duas razões: “Esse rapaz Tuta tem um irmão comunista” e, além disso, “o tio dele, que era padre, deixou a batina e virou crente”. A Roroca orientou Regininha e deu-lhe argumentos:

– Manin-nha, dizem, dizem, não sei, que o papa abençoou o ex-padre. E essa história de irmão comunista, qualquer cristão que seja contra a injustiça social e a exploração é chamado de comunista. Os ricos usam a palavra “comunismo” para assustar e enganar os bobinhos e impedi-los de lutar contra os privilégios e a opressão. Quem diz isso é o bispo dom Helder Câmara, que lembra sempre o Sermão da Montanha: – “Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor à justiça, porque deles é o Reino dos Céus¨. O Tuta, filho da dona Elisa, minha vizin-nha é gente de boa família, temente a Deus. Não acredite no fantasma do comunismo.

O último adeus

Esses argumentos foram usados para convencer a futura sogra que, no frigir dos ovos, não era má pessoa. Restava como obstáculo apenas a timidez de Regininha, mas Dile, irmã do Tuta, namoradeira que só, ajudou com uma proposta de intercâmbio:

– Maninha, tu me ensina a fazer renda, que eu te ensino a namorar.

Uma ensinou a outra. Regininha, além de mulher rendeira, era exímia artesã. Fazia, entre outras obras, arranjos de mesa muito requisitados. Dile era excelente professora: as lições de namoro deram certo. O casal de artistas, enfim, se matrimoniou em 1974. Ele imitou Nelson Gonçalves e cantou para ela os versos finais de “Êxtase”:

– Depois quero ouvir-te desvairada / dizer quase alucinada / nunca mais vou te deixar.

Os dois nunca se deixaram, viveram grudados durante 47 anos. Eram professores da rede estadual de ensino e se apoiaram mutuamente ao longo da carreira de magistério. Regininha encantada com os quadros pintados por Tuta e ele com os arranjos artísticos dela. Tiveram um casal de filhos – Cynthia e Marcelo, duas netas – Thalissa e Gabriela, um neto – Lucas e até uma bisneta – Alice.

A família deu o último adeus a Regininha, 71 anos, vítima de um enfarte, quando ela visitava os parentes do seu genro no Rio Grande do Sul. Foi sepultada no cemitério São João Batista, em Manaus, na quarta (29). O cortejo fúnebre percorreu ruas e vielas de Aparecida, sob aplausos dos moradores mobilizados pela Associação Comunitária do bairro, que demonstraram assim seu carinho e admiração. Diante da Escola Estadual Nossa Senhora Aparecida, crianças com balões brancos e cartazes também homenagearam a passagem de sua ex-diretora.

Juntando amores

Por ser tão universal a dor da perda, parece até que o escritor inglês Julian Barnes fez parte dessa história, mas ele só veio uma única vez ao Brasil para a 1ª Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP). Depois, vivenciaria a experiência traumática da morte de sua esposa. Mergulhou, então, numa imensurável solidão e só saiu do fundo do poço quando escreveu o livro “Levels of Life” (Níveis de Vida), publicado em português com o título “Altos voos e quedas livres”, no qual reflete sobre um viúvo que luta contra a solidão.

– A gente não costuma falar da morte. Muitas emoções em torno da morte e do luto são silenciadas, por pensarmos que são tristes e negativas. A única maneira que encontrei para sobreviver foi escrever e descrever minha experiência e meus sentimentos em relação à perda do ser amado – disse ele em uma entrevista.

A narrativa de Barnes, que evoca o início do balonismo, se ancora em dois exemplos: o piloto Rozier e o copiloto d’Arlandes se juntam em 1783, em Paris. para fazer, com sucesso, o primeiro voo em um balão de ar quente. Dois anos depois, o mesmo Rozier se junta com Romain, outro copiloto, para atravessar o Canal da Mancha. O balão pega fogo e os dois morrem.

– “Você junta duas pessoas que não se conheciam e às vezes o mundo se transforma, às vezes não. […] Juntas, naquela primeira exaltação, naquela primeira sensação estrondosa de entusiasmo, elas são maiores do que seus dois “eus” individuais. Juntas, elas veem mais longe, e enxergam mais claramente” – escreve Barnes

A psicanalista Maria Homem, que perdeu recentemente o homem amado – Contardo Calligaris – com quem tinha escrito um livro, publicou no dia da morte de Regininha o artigo “A arte de juntar coisas” (Folha SP 26/09) no qual dialoga com Barnes e avalia que essa é a essência do encontro: “O poder ser mais do que se seria estando só. Encontrar um outro que, não sei como, desperta o potencial que temos”.

Essa é a matemática amorosa, quando 1 + 1 não é um simples 2, mas sempre cada 1 melhor. Foi assim que Tuta e Regininha transformaram um bairro, palco e cenário de tudo que aconteceu ou ainda vai acontecer no mundo. Ela, bem informada, nos atualizava sempre sobre as mudanças no bairro, inicialmente através da comunicação analógica para depois assumir a tecnologia digital.  Agora, a coluna Taquiprati fica sem sua repórter-correspondente em Aparecida.

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