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Postado em 23/03/2021 6:27

A humilhação nacional dos EUA pela Eurásia (1)

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Por Max Parry [*]

No século XIX, a China era “o homem doente da Ásia”, no século XXI, os EUA são “o homem doente do Ocidente”

Sem abrigo em Hollywood. À medida que o poder económico americano continua a declinar, surgiu uma divisão dentro do sistema político dos EUA sobre qual dos seus designados adversários se deverá culpar pelas desgraças do país:   a Rússia ou a China. A disputa atingiu o auge durante as duas últimas eleições presidenciais, com o Partido Democrata culpando Moscou pela derrota chocante de Hillary Clinton em 2016 devido à “intromissão eleitoral” não comprovada do Kremlin. Após a vitória igualmente polémica de Joe Biden sobre Donald Trump em novembro passado, o Partido Republicano retaliou retratando o 46º presidente como “brando com a China”, tal como os seus opositores tinham criticamente chamado a atenção para os supostos laços de Trump com a Rússia – embora ambos tenham assumido posições duras para cada um dos respetivos países.

 

Em resultado desta atmosfera política neo-macartista, a distensão internacional foi criminalizada. Para entender o que está a impulsionar esta guerra entre fações da elite anglo-americana perante à ascensão da China e da Rússia no cenário mundial, é necessário revisitar a história das relações entre as três nações. 

Desde o primeiro milénio até o século XIX, a China foi uma das principais potências económicas do mundo. Hoje, a República Popular recuperou amplamente essa posição e até ao final da década deverá ultrapassar os EUA como a maior economia do mundo [NT], um ganho que pode ser acelerado pela recessão pós-pandemia dos EUA em comparação com a rápida recuperação da China. Infelizmente, a atitude ocidental em relação à China permanece presa no “século da humilhação”, onde, de meados do século XIX até a Revolução Chinesa em 1949, foi sucessivamente violentada e pilhada pelas potências imperiais do Ocidente, o Japão e a Rússia.

A razão pela qual o mundo anglófono se apega a esta visão retrógrada é porque, além desse período centenário, o Ocidente sempre esteve em segundo plano em relação à China como o país mais evoluído do mundo, fornecendo um padrão global em infraestruturas, tecnologia, governação, agricultura, economia e desenvolvimento. Mesmo no auge do Império Romano, na dinastia Han, quando a antiga Rota da Seda começou, a China era muito maior em território e população.

Durante dois anos consecutivos no início da década de 1930, o livro de ficção mais vendido nos EUA foi The Good Earth, de Pearl S. Buck, que retratava a extrema pobreza e a fome da vida camponesa rural na China pré-revolucionária. Em muitos aspetos, a imagem da China na mente ocidental continua sendo composta a partir do romance de Pearl Buck que ganhou o Prémio Nobel.

O antigo Império Chinês passou pelos “cem anos de humilhação” depois de sofrer uma série de derrotas militares nas Guerras do Ópio que financiaram a industrialização ocidental, após o que a entrega de territórios e reparações de guerra em Tratados desiguais deixaram a China subjugada como o “doente da Ásia”. À semelhança da Rússia, que tinha ficado para trás após a Revolução Industrial da Europa até aos planos económicos centralizados soviéticos da década de 1930, a China foi capaz de transformar a sua economia principalmente agrícola num gigante industrial após a revolução comunista de 1949.

No entanto, houve apenas um curto período de tempo até à divisão Sino-Soviética em 1961, quando a China começou a abrir seu próprio caminho num dos desenvolvimentos geopolíticos mais mal compreendidos da Guerra Fria.

Em 1956, o primeiro-ministro soviético Nikita Khrushchev forneceu no 20º Congresso do Partido Comunista da União Soviética, um relatório intitulado “Sobre o Culto da Personalidade e suas Consequências”, conhecido como o seu “Discurso Secreto”, onde este político, ucraniano de nascimento, denunciou os excessos do seu falecido antecessor, Stalin. A notícia do chocante discurso ao Politburo não apenas polarizou ainda mais um movimento comunista internacional já dividido entre trotskistas e o Comintern, mas teve consequências geopolíticas muito para além do seu pretendido propósito de convencer Washington a diminuir a corrida armamentista. No início, a China durante a Campanha das Cem Flores, assumiu uma posição relativamente neutra em relação às reformas soviéticas, mesmo com Mao a encorajar a URSS a acabar com a contra-revolução de 1956 na Hungria.

O verdadeiro ponto de viragem nas relações Sino-Soviéticas deu-se quando começou a conciliação burocrática do chamado “degelo” de Khrushchev desencorajando os movimentos que existiam nos países em desenvolvimento vivendo sob ditaduras apoiadas pelo Ocidente, a pegar em armas na luta revolucionária. Com o apoio de Enver Hoxha da Albânia, a China começou a criticar ferozmente a desestalinização e acusou a União Soviética de “revisionismo” por dar prioridade à paz mundial e evitar uma guerra nuclear acima do apoio aos movimentos de libertação nacional, tornando-se assim de facto o líder do “Terceiro Mundismo” contra o imperialismo ocidental. Moscou reagiu congelando a ajuda à China, o que prejudicou muito a sua economia e azedou as relações entre os dois maiores países socialistas do mundo, transformando a Guerra Fria num conflito tripartido, já multifacetado com o Movimento dos Não-Alinhados liderado pela Iugoslávia após o afastamento de Josep Broz Tito em relação a Stalin.

Enquanto a RPC continuava a romper com o que Mao via como o desvio da URSS do marxismo-leninismo, a China trilhou o caminho mais fácil da Revolução Cultural durante a década de 1960, misturada com a ascensão da fação do Bando dos Quatro, que deu ainda mais um passo na política anti-soviética ao condenar a URSS como “social imperialista” e uma ameaça ainda maior do que o Ocidente. Isso levou a vários grandes erros na política externa e a uma completa traição ao internacionalismo, com a China aliando-se aos EUA no apoio à UNITA contra o MPLA na guerra civil angolana, aos genocidas Khmer Vermelhos apoiados pela CIA no Camboja contra o Vietnã e aos fascistas do regime de Augusto Pinochet no Chile.

Depois de anos de isolamento internacional, o presidente dos EUA Richard Nixon e o seu criminoso de guerra, o secretário de Estado Henry Kissinger, foram recebidos na China como convidados em 1972. Apesar das razões iniciais para a divisão sino-soviética, ironicamente foi a União Soviética que acabou carregando o manto da libertação nacional, com a URSS apoiando numerosas revoluções socialistas no sul global enquanto a China tomava o partido do imperialismo.

Em retrospectiva, a conclusão da Guerra Fria com o fim da URSS foi indiscutivelmente um resultado inevitável da divisão sino-soviética. Em última análise, erros foram cometidos por ambos os lados e são reconhecidos pelos dois países hoje, como pode ser visto na visão histórica negativa de Khrushchev pelo Partido Comunista da Federação Russa e na denúncia da Revolução Cultural e do Bando dos Quatro pelo Partido Comunista da China. Na verdade, a China desde então pediu desculpas a Angola pelo apoio à UNITA de Jonas Savimbi.

No entanto, a ruptura nas relações políticas com Moscou também deu início a um processo em que a China desenvolveu a sua própria interpretação do marxismo-leninismo que divergia do modelo soviético e acabou permitindo um nível de iniciativa privada que nunca ocorreu sob a URSS, inclusivamente durante a Nova Política Económica de curta duração nos anos 1920. Verdade seja dita, pode ter sido exatamente isto que impediu a China de ter o mesmo destino.

A partir de 1978, a China começou a abrir sua economia à iniciativa privada nacional e até mesmo ao capital estrangeiro, mas com o Partido no poder e o governo mantendo a autoridade final sobre os sectores público e privado. O resultado da implementação de reformas orientadas para o mercado, mantendo principalmente a propriedade estatal da indústria, foi a maravilha económica que vemos hoje, onde a China se tornou a “fábrica mundial” e potência global de produção. Durante quatro décadas, o crescimento real do produto interno bruto da China foi em média quase 10% ao ano e quase mil milhões de pessoas foram tiradas da pobreza, mas com o capital sem nunca ultrapassar a autoridade política do PCC.

Infelizmente, o sucesso da reforma de Deng Xiaoping do sistema socialista chinês não foi replicado pela perestroika (“reestruturação”) na URSS sob a liderança de Mikhail Gorbachev, que falhou completamente em fazer reviver a economia soviética e acabou supervisionando sua dissolução em 1991. 

Durante a década de 1990, a Rússia sofreu um colapso total, pois as suas empresas anteriormente funcionando de forma planeada foram desmanteladas pelas mesmas políticas neoliberais que Margaret Thatcher certa vez expressou como “não há alternativa” (TINA). A restauração do capitalismo aumentou drasticamente a pobreza, o desemprego, a mortalidade, sob a “terapia de choque” imposta pelo FMI, que criou, da noite para o dia, uma nova classe obscenamente rica de oligarcas russos. Tanto assim, que as fortunas dos Semibankarschina (“sete banqueiros”) foram comparadas aos boiardos da nobreza czarista dos séculos anteriores.

Esta elite controlava a maior parte da mídia do país e financiava as campanhas eleitorais do presidente pró-Ocidente Boris Yeltsin, que transformou a economia anteriormente centralizada num sistema de mercado livre. Assim foi até que o seu notório sucessor assumiu o poder e trouxe o setor de energia de volta ao controlo do Estado russo, restaurou os salários, reduziu a pobreza e expulsou investidores estrangeiros corruptos como Bill Browder. Desnecessário dizer que os EUA não ficaram satisfeitos com o renascimento bem sucedido da economia russa com Vladimir Putin porque já estavam a enfrentar um contendor geopolítico, a China.

(continua)

[NT] Em termos de paridade de poder de compra (PPP) já em 2017 a China havia ultrapassado tanto os EUA como a UE.

[*] Jornalista independente e analista geopolítico. Os seus escritos são divulgados amplamente na mídia alternativa. Pode ser contatado em [email protected]

O original encontra-se em www.informationclearinghouse.info/56462.html

Este artigo encontra-se em https://resistir.info

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