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Postado em 01/04/2021 8:12

A criação artificial da escassez: o caso das vacinas

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Cartoon de Monta

Por Juan Torres López [*]

O desaparecido economista e catedrático da Universidade de Salamanca David Anisi escreveu em 1995 um livro intitulado Credores de escassez. Del bienestar al miedo (Alianza Editorial). Nele explicava que, ao contrário do que se acreditava, a crise que se verificou a partir dos anos 70 não havia sido o que obrigou a questionar o Estado de Bem-Estar, mas foi o inverso: a colocação em causa deste último originou a crise.

Como explicava Anisi, “havia chegado o momento de disciplinar os trabalhadores. E assim se fez”.

Para isso recorreu-se à forma sempre mais eficaz, gerando o desemprego. Aquele que carece de rendimentos e meios de vida não tem outro remédio senão aceitar o que aparece para ir em frente e converte-se assim num ser pessoal, mental e socialmente frágil, facilmente manipulável e disciplinado.

Para provocar deliberadamente o desemprego que disciplinasse as classes trabalhadoras aplicaram-se políticas baseadas na criação artificial de escassez, aumentando as taxas de juro (o que travava o investimento produtivo mas ao mesmo tempo enriquecia os possuidores do dinheiro), reduzindo salários (o que reduzia o consumo mas aumentava os lucros das grandes empresas que têm mercados cativos) e provocando défices públicos e muita dívida (arrefecendo assim a economia mas aumentando o negócio do capital financeiro).

O efeito dessas políticas é o mesmo de pisar constantemente o freio em num veículo: diminui a velocidade de cruzeiro, gasta-se muito mais energia e deteriora-se o conjunto da maquinaria. Numa economia, a consequência é que diminui a taxa de crescimento da atividade econômica e aumenta o desemprego. Dois efeitos que se agravam quando todo isso ocorre, como se verificou nos anos oitenta e noventa do século passado, em meio a uma revolução tecnológica. Quando esta se manifesta, aumenta a produtividade e se este aumento não for acompanhado por uma redução da jornada e de políticas expansivas do gasto, o efeito da travagem é muito maior.

Isso é o que vêm provocando as políticas neoliberais e por isso dizemos que criam escassez artificialmente. Destroçam toda a economia e diminuem a provisão de bens e serviços, mas beneficiam muito, como já disse, os proprietários do capital financeiro (que se enriquecem mais quanto maior for a dívida) e as grandes empresas que dominam os mercados e têm clientes cativos ou uma massa de liquidez muito grande com a qual se enriquecem nos mercados financeiros.

Pode parecer que a tese que acabo de expor seja demasiado perversa para ser verdade mas, se não acreditam, leiam o que escreveu na página 183 do seu livro El final de la edad dorada (Ed. Taurus, 1996) aquele que foi um poderoso ministro da Economia de Felipe González, Carlos Solchaga: “A redução do desemprego, longe de ser uma estratégia da qual todos sairiam beneficiados, é uma decisão que se fosse executada poderia acarretar prejuízos a muitos grupos de interesses e a alguns grupos de opinião pública”. Não se pode reconhecer mais explícita e claramente.

De facto, o capitalismo dos nossos dias é um criador artificial de escassez e neste momento estamos a contemplar no caso das vacinas uma manifestação mortífera disso.

Quando se estendeu a pandemia, as autoridades mundiais reconheceram o lógico e elementar: o seu remédio não podia ser outro senão uma vacinação maciça e muito rápida da maior parte da população mundial. 

A presidente da Comissão Europeia instou a que as vacinas se convertessem num bem público porque “a União Europeia havia investido muitos milhares de milhões no seu desenvolvimento”. O Fundo Monetário Internacional pedia no seu relatório de janeiro último uma “distribuição universal de vacinas … a preços acessíveis para todos”…

Contudo, não é isso o que está a acontecer e sim exatamente o contrário: os governos dos países ricos recusam que as vacinas se possam produzir e distribuir maciçamente e a preços acessíveis em todos os países do mundo, como seria imprescindível para acabar com a pandemia. Continua-se a criar escassez ainda que agora não seja para disciplinar as classes trabalhadoras e sim para salvaguardar o lucro e o poder das grandes empresas farmacêuticas, de cuja natureza e estratégia escrevia há dias o professor Vicenç Navarro nestas mesmas páginas (aqui).

Para desenvolver vacinas de distribuição universal, como pede o FMI, é preciso a colaboração de cientistas e produtores de todo o planeta, mas isso só é possível se se puser à disposição de todos eles o conhecimento e a técnicas que as tornam possível, algo que é impossível enquanto não se suspenderem as patentes e direitos de propriedade intelectual.

É o que está a pedir há meses a grande maioria de países, líderes políticos, organizações de todo tipo, centros de investigação, personalidades, dirigentes de igrejas… E é o que deseja a imensa maioria da população nos lugares onde em que lhe foi perguntado (73% no Reino Unido). 

Mas, contra essa opinião maioritária, os governos dos países ricos (Estados Unidos, União Europeia, Japão, Reino Unido, Brasil, Canadá, Noruega e uns poucos mais) opõem-se constantemente a isso. 

A fim de salvaguardar os interesses comerciais das grandes empresas farmacêuticas que produzem as vacinas (o mesmo poderia dizer-se de outros bens, dispositivos ou instrumentos de diagnóstico que estão a ser imprescindíveis na pandemia), está-se a dar lugar a uma carência generalizada de vacinas, simplesmente, porque não se está a aproveitar toda a capacidade potencial de fabricação das mesmas. Os dados são inapeláveis:

– Só se está a utilizar 43% da capacidade que há no mundo para produzir as vacinas já aprovadas (aqui).

– As três maiores fabricantes de vacinas só estão a produzir para 1,5% da população mundial, um volume muito abaixo da sua capacidade potencial por não ter acesso às licenças (aqui).

– Apesar da escassez, quando alguns fabricantes se oferecem para produzi-las não recebem resposta das empresas que, com o beneplácito dos governos, dominam o mercado. Isso aconteceu com a dinamarquesa Bavarian Nordic que poderia fabricar quase 250 milhões de vacinas (aqui).

– Algo parecido ocorre em países como a Índia: um dos seus fabricantes está a produzir milhões de vacinas mas há pelo menos outras vinte fábricas, e outras muitas em todo o mundo, que poderiam estar a produzi-las se tivessem acesso às licenças (aqui).

A consequência de tudo isto é duplamente absurda e me atreveria a dizer que criminosa.

Em primeiro lugar, milhares de milhões de pessoas dos países mais pobres ficam à margem da vacinação que lhes pode evitar a enfermidade. Os países ricos (16% da população mundial) acumulam as vacinas (60%) enquanto os mais pobres estão desabastecidos. O Reino Unido havia distribuído mais de 31 doses por cada 100 pessoas e os Estados Unidos mais de 22 em fins de fevereiro, a Ásia no seu conjunto um pouco mais de dois e a África menos 0,55 em média nos países onde haviam chegado (aqui). A um terço da humanidade não chegou nem uma dose e, segundo The Economist, mais de 85 países não vacinarão o suficiente até 2023 (aqui), enquanto os governos dos países ricos compraram três vezes mais unidades do que precisa a sua população (cinco no Canadá)

Isto não apenas um genocídio e sim, para cúmulo, de uma completa estupidez. A acumulação de vacinas nos países ricos não vai terminar com a pandemia porque esta é global e as mutações podem vir de qualquer país onde a vacina não tenha chegado. E é também uma política estúpida porque, como expliquei num artigo anterior, financiar a vacinação em todos os países do mundo implica 338 vezes menos dinheiro do que o que custará o dano de não o fazer (aqui). Mais uma prova de que as decisões económicas que se tomam não buscam a eficiência nem a poupança e sim o enriquecimento de uns poucos.

A política dos países ricos é igualmente absurda porque, em última análise, vai criar racionamento também em casa, como está a acontecer na União Europeia. E também é estúpido responder à escassez que eles próprios causaram restringindo as exportações, porque isso não melhorará nem o abastecimento interno nem o global, mas provocará respostas do mesmo tipo que irão perturbar as cadeias de abastecimento.

A pandemia não está a ser combatida como os próprios líderes mundiais disseram que deveria ser combatida porque são incapazes ou não estão dispostos a limitar a ganância de uns poucos. Uma crise econômica gigantesca e a perda de milhões de empresas e empregos está a ser causada para a salvaguarda dos privilégios dos grandes monopólios. Milhões de pessoas vão morrer desnecessariamente porque se está a dar prioridade aos interesses comerciais.

Terminarei citando um autor amaldiçoado porque penso que ele estava absolutamente certo. Refiro-me a Frederich Engels que disse na sua obra A situação da classe operária na Inglaterra que quando as pessoas morrem como “vítimas da nossa desordem social e das classes que têm interesse nessa desordem” é cometido um “assassinato social”.

Isso é o que agora está a acontecer com as vacinas e por isso torna-se cada vez mais necessário que se definam e persigam os crimes económicos contra a humanidade.

 [*] Professor de teoria económica na Universidade de Sevilha.

O original encontra-se em juantorreslopez.com/la-creacion-artificial-de-la-escasez-el-caso-de-las-vacunas/

Este artigo encontra-se em https://resistir.info

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